Startups mudam a educação ao atacar problemas concretos das escolas

As startups de educação estão transformando o ecossistema educacional no Brasil ao atuar sobre gargalos práticos das redes de ensino, como integração entre plataformas, personalização do aprendizado, formação de professores, segurança física nas escolas e adaptação de soluções à realidade de cada aluno. Essa foi a síntese do painel moderado por Roberta Piozzi, diretora de Parcerias e Projetos em Educação da Brasscom, durante Edtechs, evento do Tele.Síntese, nesta terça-feira, 24, em Brasília.

Na abertura do debate, Danilo Yoneshige, cofundador e CEO da Layers Education, afirmou que a empresa opera como um “super app” voltado à integração de soluções educacionais. Segundo ele, a companhia atende cerca de 2.200 escolas privadas e 9.600 públicas e trabalha para criar uma base de interoperabilidade entre sistemas, permitindo compartilhamento estruturado e seguro de dados. A ideia, disse, é reduzir uma das barreiras históricas da digitalização no ensino: a fragmentação das ferramentas.

Da infraestrutura à personalização

Leandro Maia, fundador da School Guardian, disse que uma das oportunidades centrais para as edtechs está em conectar demandas reais da sala de aula e da gestão escolar às soluções que vêm sendo desenvolvidas. Para ele, infraestrutura e interoperabilidade são elementos de base para que outras inovações consigam escalar. Maia também relatou que, em eventos recentes do setor, a discussão sobre IA começou a sair do plano mais superficial e a se voltar para problemas concretos da educação.

Danilo Yoneshige acrescentou que o mercado passou por mudanças importantes entre o pré e o pós-pandemia. Segundo ele, o Brasil tinha cerca de 800 edtechs antes da crise sanitária, número que caiu para 150 empresas ativas emitindo nota fiscal durante a pandemia e depois voltou a cerca de 450, segundo relatório de 2025 mencionado no painel. Ele também afirmou que o investimento em edtechs caiu mais de 90% desde 2020. Ainda assim, apontou a IA como o principal vetor de mudança recente, ao viabilizar atendimento mais individualizado a baixo custo. “Esse caminho de personalização e apoio é o que hoje eu tenho visto de maior apoio que as edtechs estão trazendo para a educação a um custo muito baixo”, declarou.

Startups entram também na educação profissional

Luiz Eduardo Leão, gerente de Tecnologias Educacionais no SENAI – Departamento Nacional, afirmou que a maior parte das edtechs brasileiras se concentrou inicialmente na educação básica, mas que o SENAI passou a estimular sua entrada na educação profissional. Ele citou o uso de realidade virtual, realidade mista e simuladores em ambientes industriais como exemplos de aplicação e disse que o instituto criado pela entidade busca aproximar startups dos desafios ligados ao mundo do trabalho.

Leão destacou ainda que a parceria com startups ajuda instituições tradicionais a escapar da lógica de desenvolver soluções sem ouvir o usuário. “Isso aí eu acho que a startup dá um banho na gente, porque ela tem essa obsessão de ouvir o cliente”, afirmou. Também ressaltou que a adoção tecnológica precisa considerar limites materiais dos estudantes. “Não adianta desenvolver um aplicativo de realidade aumentada que dependa do que o aluno tem, um iPhone 16.”

Formação docente e escuta do aluno

Vinicius Arakaki, cofundador da Edusense, defendeu que a formação de professores continua necessária, mas observou que a velocidade das mudanças tecnológicas supera o ritmo dessa capacitação. Segundo ele, o desafio não é apenas técnico, mas também humano e geracional. “Esse professor tem que mudar o papel dele e trabalhar ali como um editor, trabalhar ali como um mediador, usando a tecnologia para potencializar o trabalho dele, focando na aprendizagem”, afirmou.

Na etapa final do painel, os debatedores convergiram sobre outro ponto: a transformação trazida pelas startups depende de ouvir mais os alunos. Leão reconheceu que o SENAI ainda escuta pouco esse público e defendeu integrar os estudantes às decisões da escola. Maia afirmou que a lógica das startups exige validação do problema com quem vive a rotina escolar. Yoneshige relatou que escolas já estão construindo seus próprios aplicativos dentro do ecossistema da Layers, inclusive com participação de ex-alunos.

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