
O compartilhamento de informações sobre ameaças e incidentes deve ser uma condição básica da política nacional de cibersegurança, e não apenas uma prática recomendada. A avaliação é de Luiz Fernando Moraes da Silva, diretor do Departamento de Segurança Cibernética do Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República (GSI).
Para o representante do governo, o Brasil precisa integrar os dados produzidos por empresas, setores econômicos e órgãos públicos para formar uma consciência situacional nacional. A estrutura permitiria identificar ameaças, correlacionar incidentes e organizar a resposta do País a ataques que atinjam redes, serviços digitais e infraestruturas críticas. “Compartilhar não é um critério desejável. Compartilhar é a condição básica de garantia de que algo está sendo feito na direção da cibersegurança”, afirmou nesta terça-feira, 11, durante o evento TS Segurança Digital e Serviços Gerenciados, realizado pelo Tele.Síntese em São Paulo.
Luiz Fernando participou do painel “Marco Regulatório de Cibersegurança: coordenação nacional, infraestruturas críticas e responsabilidades”. Segundo ele, a regulação deve ser tratada como um instrumento para elevar a segurança, e não como a finalidade da política pública.
“A regulação não é atividade-fim. A atividade-fim é prover segurança. A regulação age em diferentes áreas, potencializando esse objetivo final, que é a cibersegurança”, disse.
Centro Nacional reuniria informações
O diretor destacou o Centro Nacional de Cibersegurança previsto no anteprojeto elaborado pelo Comitê Nacional de Cibersegurança (CNCiber). A estrutura funcionaria no âmbito da futura autoridade nacional e teria a atribuição de consolidar e sintetizar informações sobre ameaças e incidentes.
Luiz Fernando afirmou que o centro deveria se conectar às estruturas de compartilhamento organizadas por setores econômicos. Nesse modelo, cada segmento reuniria informações específicas sobre ameaças, vulnerabilidades e atividades maliciosas para distribuí-las entre seus integrantes e encaminhar os dados necessários à estrutura nacional.
A articulação permitiria transformar informações dispersas em uma visão sobre o cenário de segurança cibernética do País. “A interligação desses setores com o centro nacional vai propiciar a consciência situacional nacional de cibersegurança”, afirmou.
O representante do GSI citou a Portaria nº 148, publicada pelo órgão em 2025, como uma iniciativa voltada a estimular a criação de Centros de Compartilhamento e Análise de Informações, conhecidos pela sigla em inglês ISAC. Essas estruturas são organizadas por segmentos para facilitar a circulação de inteligência sobre ameaças entre participantes que enfrentam riscos semelhantes.
Segundo ele, a organização setorial cria um ambiente no qual as informações ganham utilidade e podem circular com mais facilidade. O anteprojeto do CNCiber também procura incorporar o compartilhamento ao desenho institucional da política nacional.
País tem “ilhas de excelência”
Luiz Fernando avaliou que o principal problema brasileiro não é a falta de profissionais capacitados ou de instituições com experiência em segurança cibernética. O País possui o que chamou de “ilhas de excelência” nos setores público e privado, mas ainda não dispõe de capacidade suficiente para coordenar esses atores.
“O principal problema que nós temos não é a competência do profissional, não são as instituições já existentes que realizam trabalho de excelência em suas áreas. É, novamente, a capacidade de todas elas se coordenarem e trabalharem conjuntamente”, afirmou.
Essa coordenação abrangeria incidentes relacionados ao cibercrime e ameaças à estabilidade da internet, das redes e dos serviços digitais. Em uma crise, também deveria permitir a priorização de serviços essenciais e uma degradação controlada das atividades afetadas.
O diretor ressaltou que o Brasil, pelo volume de tráfego, pelo nível de digitalização e pela exposição a agentes maliciosos, necessita de uma estrutura que vá além da articulação informal entre instituições. “A cibersegurança é aquela que cada dia é construída e cada dia é destruída”, afirmou. “O ato malicioso é muito mais coordenado do que nós estamos atualmente.”
Em sua avaliação, uma governança nacional deve alcançar desde a proteção do cidadão até a continuidade das infraestruturas críticas. A finalidade é preservar os serviços essenciais e criar condições para a atividade econômica.
IA agêntica pode acelerar correlação
O representante do GSI também apontou a IA agêntica como uma ferramenta para processar e correlacionar o volume de informações produzido pelas estruturas de cibersegurança. Ele lembrou que recursos de IA já estão presentes em sistemas de gerenciamento de eventos e informações de segurança, os SIEMs, em soluções instaladas nos dispositivos de usuários e em equipamentos dedicados à proteção de redes.
A evolução para agentes capazes de executar tarefas e correlacionar dados pode aumentar a velocidade da identificação de ameaças e da resposta a incidentes. Para Luiz Fernando, a tecnologia deve complementar o trabalho humano dentro de estruturas preparadas para receber e distribuir informações. “A IA agêntica está se constituindo no centro nervoso da cibersegurança”, afirmou. “É essa IA que vai conseguir dar velocidade à correlação, à união da informação.”
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