Fair share enfrenta lobby “fortíssimo” das big techs, diz presidente da Claro

O presidente da Claro, José Félix, afirmou que o debate sobre fair share no Brasil enfrenta resistência das grandes plataformas digitais e classificou como “fortíssimo” o lobby exercido pelas big techs contra mecanismos de remuneração das redes de telecomunicações. A declaração foi dada durante entrevista ao Tele.Síntese no Painel Telebrasil 2026, na última semana.

Segundo o executivo, as plataformas digitais concentram parcela relevante do tráfego das redes, mas o setor de telecomunicações segue arcando sozinho com os investimentos em infraestrutura. “São responsáveis por 50% do consumo da infraestrutura, e fica assim, por isso mesmo”, falou no TV.Síntese.

O executivo criticou ainda propostas legislativas que tentam impedir qualquer cobrança relacionada ao fair share. Para ele, a atuação política das plataformas digitais influencia diretamente o debate regulatório. “Você sabe que o lobby dessas empresas, dessas big techs, é fortíssimo”, declarou.

José Félix lembrou da assimetria regulatória entre operadoras e plataformas digitais globais. “São empresas gigantescas que hoje dominam o mercado, não brasileiro, mas o mercado mundial, e não é possível sentar com eles em condições de igual para igual para negociar”, disse.

Na avaliação do presidente da Claro, um modelo de compartilhamento de custos poderia ampliar investimentos e capilaridade das redes. “A gente poderia ter redes eventualmente muito mais saudáveis, muito mais capilares”, defendeu.

Neutralidade de rede e network slicing

Durante a entrevista, José Félix também criticou a interpretação atual das regras de neutralidade de rede no Brasil. Segundo ele, a regulação cria insegurança para o desenvolvimento de produtos avançados de conectividade, especialmente aplicações ligadas ao 5G. O executivo afirmou que a neutralidade de rede “inibe fortemente o processo de inovação e de investimento”.

Como exemplo, ele citou dificuldades para criação de serviços diferenciados de latência e qualidade de serviço, incluindo aplicações futuras de network slicing. “A neutralidade de rede me prejudica na criação de produtos de slicing, me prejudica na criação de produtos com qualidade de serviço”, afirmou.

José Félix mencionou ainda possíveis aplicações futuras que exigiriam redes com requisitos específicos de desempenho, como carros autônomos e cirurgias remotas. “Vai ter uma cirurgia à distância por um robô comandado por um médico espetacular do hospital não sei de onde. Esse é um produto, uma rede vai ter que estar pronta com uma qualidade diferenciada para suportar um produto dessa natureza”, disse.

Segundo ele, ainda há dúvidas no setor sobre o grau de flexibilidade permitido pela legislação atual.

Críticas à Lei do SeAC

Outro ponto abordado pelo presidente da Claro foi a regulação da TV por assinatura. José Félix afirmou que a Lei do Serviço de Acesso Condicionado (SeAC), de 2011, impôs restrições excessivas ao setor e prejudicou o desenvolvimento do mercado audiovisual. “A lei do SeAC foi tão danosa em alguns aspectos e tão restritiva que conseguiu acabar com o SeAC”, declarou.

O executivo criticou especialmente o fato de a legislação ter sido construída com foco em tecnologias específicas, em vez de serviços digitais equivalentes. “A lei do SeAC regula tecnologia”, afirmou.

Ele comparou o tratamento regulatório dado à TV por assinatura tradicional com o streaming, classificando o cenário como desigual. “As duas coisas têm legislação e regulação completamente díspares, não faz sentido algum”, afirmou.

José Félix também comentou que a migração total dos clientes da TV por assinatura tradicional para plataformas OTT ainda enfrenta barreiras econômicas e operacionais, incluindo custos de substituição de equipamentos e diferenças de experiência do usuário, como atrasos nas transmissões via streaming.

IA para segmentação de clientes

Na entrevista, o executivo também destacou o uso de inteligência artificial para aprofundar o conhecimento sobre o comportamento dos consumidores. Segundo José Félix, a IA poderá auxiliar na personalização de serviços e na segmentação da base de clientes conforme diferentes perfis de consumo.

“Inteligência artificial vem ajudar muito no conhecimento do cliente, na segmentação dos clientes”, afirmou.

Ele citou exemplos de consumidores com demandas distintas, incluindo usuários que priorizam baixa latência, atendimento exclusivamente digital, vídeo ou velocidade de conexão. “Um dos meus projetos é exatamente esse, é usar inteligência artificial para aprofundar o conhecimento do cliente”, disse.

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