
A Anatel vai continuar medindo a velocidade da banda larga fixa enquanto esse for o principal parâmetro usado nas ofertas ao consumidor, mas a discussão sobre qualidade da internet precisa avançar para além dos megabits contratados. Essa foi a principal mensagem do painel “Velocidade, Experiência e Transparência: Como Avaliar a Qualidade Real da Internet?”, realizado no AGC 2026, evento da Abrint, em São Paulo.
O debate reuniu Cristiana Camarate, superintendente de Relações com Consumidores da Anatel; Holger Wiehen, Supervisor de Projetos de Medição do NIC.br; Lourenço Lanfranchi, Diretor da Ookla; Basílio Perez, vice-presidente da Abrint; e Mayara Figueiredo, como moderadora.
A discussão apontou que velocidade, Wi-Fi doméstico, qualidade da informação, tipo de dispositivo, distância do roteador, uso simultâneo da rede e experiência em aplicações precisam ser considerados em conjunto para avaliar o serviço entregue ao usuário.
Velocidade média cresceu, defendeu Anatel
Cristiana Camarate afirmou que dados de diferentes fontes devem ser usados de forma complementar para orientar políticas públicas e decisões de mercado. “Os dados devem todos se juntar para gerar um indicativo de atuação, seja de política pública, seja para o mercado, como o mercado deve atuar, e querer se diferenciar entre si”, disse.
A superintendente citou dados declaratórios acompanhados pela Anatel sobre a velocidade média contratada. “No final de 2020, a gente tinha como base média 89 megabits por segundo. Em fevereiro desse ano, a gente teve uma base média […] de quase 500 megabits”, afirmou.
Segundo ela, o avanço representa “557% de aumento nos últimos 5 anos”. “Ou, falado de outra forma, isso representa que a cada ano nós dobramos a velocidade média”, disse. A superintendente afirmou que os números indicam o investimento em infraestrutura. “O Brasil, as empresas estão investindo em infraestrutura, isso é real e está acontecendo”, declarou.
Informação pesa na satisfação
A representante da Anatel também associou a qualidade percebida pelo consumidor à informação recebida sobre o serviço. Segundo as anotações do painel, a pesquisa de satisfação da agência mostra que a percepção de funcionamento e informação impactam a satisfação geral do consumidor.
Cristiana afirmou que o consumidor contrata a banda larga para conectar toda a residência, geralmente por Wi-Fi, e que isso precisa ser considerado por quem vende o serviço. “Temos que ser maduros o suficiente que uma internet em casa é para conectar sua casa inteira, e o consumidor compra com essa finalidade e quem vende tem que estar muito presente”, disse.
Ao final, ela reforçou que a agência admite diferentes modelos comerciais, desde que o consumidor seja corretamente informado. “O que importa é que sempre haja transparência e uma comunicação assertiva com o consumidor, para que ele compre saiba o que está comprando, receba exatamente o que está comprando e, claro, seja bem informado de suas escolhas”, afirmou.
NIC.br defende métricas além da velocidade
Holger Wiehen, do NIC.br, afirmou que indicadores distintos podem divergir porque são produzidos para públicos e finalidades diferentes. Para ele, a medição voltada ao usuário precisa explicar mais do que apenas a velocidade. “Na minha leitura, esse crescimento, provavelmente, foi por causa da velocidade”, disse.
Ele defendeu que o Simet leve ao usuário a informação sobre atraso, queda de pacotes e disponibilidade de conexão, para que a avaliação não fique restrita à velocidade, explicando que deve existir um esforço para traduzir métricas em informação útil. “Qual aplicação o usuário consegue usar com qualidade? Por exemplo, o streaming, uso de redes sociais, videoconferência, traduzir esse valor numérico numa informação de verdade para ele”, afirmou.
O executivo também afirmou que a ferramenta usada no projeto com a Anatel busca identificar limitações locais, como Wi-Fi ou dispositivos. “A ferramenta, através da sua metodologia, detecta quando esses fatores locais estão com uma limitação e consegue, então, caracterizar essa medição que foi feita”, disse.
Competição puxou velocidade, diz Ookla
Lourenço Lanfranchi, da Ookla, afirmou que comparações internacionais de velocidade precisam considerar geografia, investimento público e competitividade.
“Não dá para você comparar o Brasil com a maioria dos países que mencionei anteriormente. Olha o tamanho do Brasil, olha a variação regional”, disse. “Essa variação regional é muito importante, pois para você conseguir chegar no tamanho do Brasil e levar uma velocidade média igual é um desafio muito grande.”
O executivo disse que a competição no país teve papel relevante na evolução da banda larga. “O ambiente competitivo é uma relação direta com a velocidade”, afirmou. “Acabou sendo até mais importante quando a gente olha até o investimento público e competitividade, que é um fator muito mais decisivo em países diferentes e heterogêneos, para terem uma melhor qualidade.”
Segundo ele, a Ookla também mede experiências específicas de uso. “A Ookla mede, além da velocidade, a experiência de vídeo, de navegação, de cloud, a experiência de gaming, a experiência de uso de IA”, afirmou.
Abrint vê problema na venda baseada só em megabits
Basílio Perez, vice-presidente da Abrint, afirmou que os provedores têm obrigação de entregar a velocidade contratada, mas que a percepção do usuário pode ser afetada por fatores dentro da residência.
“Se um cliente contratou 500 MB, tem que chegar a 500 MB na casa dele. Mas essa percepção ele muitas vezes não tem, por problemas de Wi-Fi, problemas dentro da própria residência, nos dispositivos que ele tem”, disse.
Ele afirmou que provedores com melhor percepção de qualidade são aqueles que acompanham o uso dentro da casa do cliente. “Os provedores que têm o melhor resultado em termos de percepção de qualidade são aqueles que se preocupam em entregar o serviço e olhar para dentro da casa do cliente, não simplesmente chegar com a fibra até a casa do cliente”, disse.
Basílio citou casos em que o cabeamento interno pode ser necessário para melhorar a experiência, especialmente em televisores usados para streaming. “A orientação dos técnicos é cabear a televisão, não deixar ela no Wi-Fi”, afirmou.
Para o representante da Abrint, o setor ainda não encontrou um modelo comercial alternativo à venda baseada em velocidade. “A gente já discute esse assunto com os provedores com muita frequência, estamos tentando achar outro formato comercial de vender, ainda não achamos é o formato adequado”, disse.
Ele também criticou a centralidade da velocidade na percepção do consumidor. “A questão é a medição da velocidade ser considerada como o fator que está na cabeça do consumidor. Isso é um problema. É um problema antigo e, infelizmente, já faz muito tempo que o pessoal só vende velocidade, e isso vai criando a percepção errada para o consumidor”, afirmou.
Escolas conectadas
O painel também abordou a conectividade pública em escolas, em referência a avaliação recente do TCU sobre projetos de conexão. Cristiana afirmou que a Anatel está analisando orientações e sugestões e tem contribuído para o avanço da conectividade das escolas em diálogo com o MEC.
A preocupação é evitar sobreposição de iniciativas e melhorar o uso dos dados sobre infraestrutura. A moderadora mencionou que a avaliação do TCU identificou foco excessivo na velocidade contratada, em vez da velocidade efetivamente entregue às escolas.
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