Expansão da conectividade avança, mas custo limita inclusão digital

A expansão da conectividade no Brasil entrou em uma nova etapa, com a interiorização do 4G próxima de alcançar todas as localidades com mais de 600 habitantes e o avanço simultâneo do 5G. Mas, no painel “Conectividade que Transforma: da Expansão de Rede à Inclusão Digital”, realizado nesta quinta-feira, 8, na Abrint Global Congress, reguladores, entidades e representantes do setor concordaram que levar apenas a infraestrutura não basta. O desafio agora é garantir acesso economicamente viável, uso seguro da Internet e inclusão digital efetiva.

A avaliação foi reforçada pelo conselheiro da Anatel, Octávio Pieranti, que afirmou que a agência passou a ter papel mais ativo na implementação de políticas públicas de conectividade. Segundo ele, com o leilão recente da faixa de 700 MHz, o país está próximo de concluir uma etapa da interiorização do 4G, cobrindo localidades com mais de 600 habitantes, enquanto parte do território já avança na implantação do 5G.

Pieranti acrescentou ainda que, por meio de ações conduzidas pela Anatel em parceria com outros órgãos, mais de 14 mil localidades já receberam cobertura 4G e destacou o programa Brasil Digital, coordenado pelo Ministério das Comunicações com participação da agência, que leva comunicação pública a municípios brasileiros, incluindo a universalização do sinal de TV pública no Amazonas.

Entre as iniciativas de inclusão, Fábio Farias, presidente do Instituto Navegue Bem, apresentou ações de formação digital voltadas a crianças, adolescentes e adultos em áreas periféricas. Um dos casos relatados ocorreu em Minas Gerais, onde o instituto capacitou jovens com uso de inteligência artificial para preparação ao mercado de trabalho, incluindo também adultos em processos de alfabetização digital.

O conceito de conectividade significativa também esteve presente na discussão. Paloma Rocillo, diretora da IRIS, comentou que expansão da conectividade nem sempre se traduz em acesso efetivo e lembrou que, apesar dos avanços registrados nas últimas décadas, o país vive há cerca de cinco anos um processo de estagnação no número de domicílios conectados. “Como que a gente pode fazer esses dados chegar nos pequenos provedores para promover o uso efetivo desses dados e uma ampliação efetiva da competição?”, questionou. Para ela, educação, saúde, trabalho e participação social precisam ser prioridades das políticas públicas de conectividade. “Isso vai fazer a diferença e incluir milhares de brasileiros no mundo digital”.

Na mesma linha, Oona Castro, diretora da NUPEF, destacou que, apesar da evolução do setor, ainda existem territórios sem acesso à internet fixa, móvel e, em alguns casos, até ao sinal de TV pública. “A gente precisa avançar para aquela parcela que hoje não tem acesso à internet fixa. A gente precisa dialogar com a população”, afirmou.

Ela defendeu o fortalecimento da infraestrutura com concorrência e maior participação dos provedores regionais, além de ressaltar que a fibra óptica continua sendo essencial para a conectividade significativa. “Até 2030 não podemos deixar ninguém para traz. É um compromisso que precisamos assumir como país.”

Acesso econômico

Se a infraestrutura avançou, o acesso econômico ainda aparece como um dos principais gargalos. Marcelo Saldanha, presidente do Instituto Bem-Estar Brasil, trouxe um dado que, segundo ele, ainda está fora do radar das discussões setoriais: mais de 30 milhões de residências brasileiras não possuem conexão por fibra óptica.

Ele lembrou que apenas cerca de 20% dos internautas contam com conectividade considerada plena, enquanto 59% estão em níveis inferiores de acesso compartilhado. O presidente destacou ainda o peso do custo da internet sobre a renda das famílias de menor poder aquisitivo.

Segundo os dados apresentados no painel, quase 70 milhões de brasileiros, distribuídos em mais de 27 milhões de famílias cadastradas em programas sociais, vivem com renda inferior a meio salário mínimo per capita. Nesse contexto, um pacote de internet com preço médio de R$ 100 representa mais de 5% da renda dessas famílias — acima do parâmetro de 2% citado como referência internacional para acessibilidade digital. “Onde é que entra um pacote de R$ 100 para essas famílias poderem incluir isso no orçamento?”, questionou Saldanha.

Ele também alertou que sem políticas públicas específicas, parte da população pode continuar desconectada mesmo com a expansão da infraestrutura. “Precisamos criar mecanismos de subsídios e oferecer neutralidade tecnológica para que o usuário possa escolher o tipo de conexão e o provedor que ele quiser”, finalizou.

O post Expansão da conectividade avança, mas custo limita inclusão digital apareceu primeiro em TeleSíntese.

Tags

Compartilhe

Migração da Oi, postes e telemarketing: a pauta do Congresso na semana
Migração da Oi, postes e telemarketing: a pauta do Congresso na semana
Anatel aprova acompanhamento da migração da Oi, mas desmembra debate sobre data center
Anatel aprova acompanhamento da migração da Oi, mas desmembra debate sobre data center
Anatel amplia novas áreas locais de telefonia fixa em maio
Anatel amplia novas áreas locais de telefonia fixa em maio
ZTE escolhe o Brasil como prioridade em banda larga fixa
ZTE escolhe o Brasil como prioridade em banda larga fixa
Dados redefinem a operação das teles no Brasil e expõem desafios como a disputa por talentos
Dados redefinem a operação das teles no Brasil e expõem desafios como a disputa por talentos
Wi-Fi doméstico é desafio para provedores de banda larga
Wi-Fi doméstico é desafio para provedores de banda larga
Expansão da conectividade avança, mas custo limita inclusão digital
Expansão da conectividade avança, mas custo limita inclusão digital
Abrint testa uso outdoor de WiFi e defende uso da tecnologia para inclusão
Abrint testa uso outdoor de WiFi e defende uso da tecnologia para inclusão
Prodemge assume coordenação do ecossistema de TIC de Minas Gerais
Prodemge assume coordenação do ecossistema de TIC de Minas Gerais
Inovação só é boa se vira solução real, senão é apenas uma boa ideia
Inovação só é boa se vira solução real, senão é apenas uma boa ideia