
O governo do Uruguai prepara uma nova licitação de espectro para ampliar a rede 5G e atender à demanda crescente por conectividade, internet das coisas e baixa latência. A informação foi dada pelo secretário da Presidência do Uruguai, Alejandro Sánchez, durante a round table “Uruguai tecnológico”, em almoço com jornalistas da Argentina, do Uruguai e do Brasil.
Sánchez afirmou que o espectro deve ser tratado como um recurso da sociedade, sob custódia do Estado. “O espectro é do Estado uruguaio, não porque seja do Estado, mas porque pertence à sociedade uruguaia e, portanto, o Estado é o custodiante desse espaço”, afirmou.
Segundo ele, o mercado de telecomunicações, que preferiu chamar de “universo digital”, exige investimentos elevados e gera tensões sobre a melhor forma de utilizar um recurso finito. O Uruguai deixou para trás práticas discricionárias na destinação de espectro e passou a adotar licitações como mecanismo de transparência, democracia e geração de valor para a sociedade.
Brechas de uso
O executivo relacionou a necessidade de nova subasta pública ao aumento do tráfego de dados. Segundo ele, em 2017, o tráfego por pessoa era de cerca de 50 GB, enquanto hoje supera 500 GB. A tendência, afirmou, é de crescimento exponencial com a internet das coisas.
O país também precisa de faixas milimétricas e de menor latência para atender empresas e cidadãos. Os blocos ainda disponíveis devem ser colocados em subasta pública para que operadores possam disputar o uso do espectro e ampliar os níveis de conectividade. “O problema é que precisamos fechar as brechas de uso, e isso é o mais importante. Já não basta apenas o acesso à fibra óptica, mas sim o uso que vamos dar a ela para produzir mais, produzir melhor e alcançar maior bem-estar”, afirmou.
De acordo com Sánchez, a próxima licitação deve manter o compromisso uruguaio de avançar na rede 5G e em outras capacidades digitais. O secretário atribuiu o andamento à ministra da Indústria, Energia e Mineração, Fernanda Cardona.
Antel e operadores privados
Questionado sobre a convivência entre a estatal Antel e operadores privados, Sánchez defendeu um modelo de competição e cooperação. Ele afirmou que o Uruguai tomou a decisão de preservar empresas públicas estratégicas, como Antel, UTE e Ancap, mas que isso não impede complementaridade com empresas privadas. “O que é preciso é ter uma visão de país, de como construímos mais e melhores infraestruturas”, disse.
Ele citou o compartilhamento de radiobases entre duas ou três operadoras como exemplo de cooperação entre empresas que também competem entre si. Segundo o secretário, o país tem 5G em todas as capitais departamentais e em algumas cidades, mas ainda enfrenta desafios de cobertura em áreas rurais.
Sánchez também mencionou a operação pela qual uma competidora da Antel foi adquirida pela Tigo como sinal de confiança no país. Para ele, o sistema uruguaio “dá certezas, dá garantias e dá confiança”.
Regulação sem travar inovação
O secretário afirmou que o Uruguai tem um regulador forte e transparente e destacou a tradição de participação da oposição em órgãos de controle e em empresas públicas. Para ele, esse modelo ajuda a dar continuidade a políticas de longo prazo. Porém, ele reconheceu que há temas regulatórios em debate, e esses assuntos fazem parte das tensões naturais do setor e precisam ser administrados para dar previsibilidade a operadores públicos e privados.
Ao tratar de regulação, o secretário defendeu equilíbrio entre proteção de direitos e estímulo à inovação. “É preciso ter a regulação mais transparente possível, que dê garantias à população e preserve os bens que queremos preservar, mas sem transformar essa regulamentação em uma camisa de força que impeça o desenvolvimento correto da inovação”, afirmou.
Cibersegurança na agenda
Questionado sobre regulação e cibercrime, Sánchez disse que cibersegurança é um dos temas mais sensíveis da agenda uruguaia. Ele afirmou que o país estruturou um espaço de trabalho com o Ministério da Defesa, empresas do setor, a Antel e a agência ligada à Presidência responsável por temas digitais e de cibersegurança.
Segundo o secretário, os episódios de tentativas de ingresso e ataques de cibersegurança no setor público cresceram de cerca de 4 mil entre 2020 e 2022 para 14 mil em 2024 e mais de 40 mil em 2025. “Ninguém pode dizer que não estará sujeito a um ataque de segurança, porque isso é assim”, afirmou.
Ele disse que o país precisa definir quais informações devem ser preservadas, quais medidas de mitigação serão adotadas em caso de incidentes e como criar cultura de denúncia em casos de golpes digitais. Também citou a necessidade de proteger infraestruturas críticas, como centrais de água potável e hidrelétricas, e ainda afirmou que o combate ao cibercrime deve preservar a intimidade das pessoas. “Às vezes, em nome da perseguição ao delito, os Estados acabam violando algo muito importante, que é a intimidade das pessoas”, disse.
O Uruguai lançou três iniciativas: uma estratégia de cibersegurança até 2030, uma estratégia nacional de dados até 2030 e um acordo para concentrar servidores do Estado no data center da Antel.
Soberania tecnológica e integração regional
Ao responder sobre neutralidade tecnológica, o secretário disse que há uma disputa geopolítica em torno da IA, das telecomunicações, dos padrões digitais, da energia e de recursos críticos. Ele citou a expansão global de data centers e afirmou que o Uruguai está em estratégia conjunta com setor público e privado para captar esse tipo de investimento. Segundo Sanchez, o data center do Google no país está em fase final de implantação e afirmou que a Antel já tem presença na Argentina, no Brasil e nos Estados Unidos, com licenças de provedor de internet nesses mercados.
Para ele, a infraestrutura digital deve ter “a capacidade, naturalmente, de ser o mais soberana possível”, sem intervenções ilegítimas de potências como Estados Unidos, China ou União Europeia. “Não se trata de fazer políticas de trincheiras ideológicas, mas de entender onde está a situação e o debate mundial”, disse.
No final do round table, Sánchez defendeu que a integração latino-americana avance em projetos concretos, e não apenas em declarações. “Se a América Latina não se integrar, terá enormes dificuldades para negociar em um mundo que não perdoa nada”. O secretário disse que o Uruguai é um país pequeno e que o Mercosul continua sendo um projeto inconcluso. Para ele, a região precisa pensar cadeias produtivas integradas e cooperação entre setor público e privado. “Eu quero ver a Antel vendendo telecomunicações para o Rio Grande do Sul, por exemplo”, disse.
Ele também afirmou que a integração não pode depender do ciclo ideológico dos governos. Segundo ele, a América Latina precisa construir políticas regionais de Estado para enfrentar seus desafios de desenvolvimento.
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