Uruguai investe em IA e fibra para desenvolvimento da economia digital

Painel abertura Uruguai

O governo do Uruguai colocou a IA, a conectividade, a energia renovável e a digitalização de serviços públicos como foco de sua estratégia de desenvolvimento econômico. A agenda foi apresentada em evento promovido pela Certal, em Montevidéu, com participação de autoridades uruguaias e representantes internacionais ligados a telecomunicações, infraestrutura digital, regulação, energia e turismo.

A linha central das falas foi a necessidade de transformar a digitalização em instrumento de produtividade, modernização administrativa, inclusão e inserção internacional. A estratégia também foi associada à disponibilidade de infraestrutura de telecomunicações, ao avanço da fibra óptica e do 5G, à implantação de data centers, ao uso de energia limpa e à construção de marcos de governança para a IA.

O secretário da Presidência do Uruguai, Alejandro Sánchez, afirmou que países pequenos e abertos precisam tomar decisões em um cenário de mudanças tecnológicas rápidas e incerteza geopolítica. “Vivemos em um mundo caracterizado pela incerteza, mas, nessa incerteza, é preciso tomar decisões”, afirmou, em tradução livre.

IA e decisões públicas

Sánchez disse que a velocidade da transformação tecnológica pressiona governos, partidos, organizações sociais e instituições públicas. Para ele, a IA deve ser tratada como oportunidade para melhorar processos, liberar tempo e ampliar a capacidade produtiva de empresas e trabalhadores.

“O pior que podemos fazer com a mudança tecnológica, com os desafios da IA, é, a partir do sistema político e do conjunto de decisores, transferir mais incerteza aos nossos cidadãos”, afirmou.

Para ele, a IA pode apoiar pequenas e médias empresas na ampliação da produção e no acesso a mercados globais, e que esse segmento representa parcela relevante do trabalho no país, mas ainda tem participação limitada nas exportações.

Painel abertura Uruguai 2

Fibra óptica e infraestrutura de dados

O secretário destacou que mais de 90% dos domicílios uruguaios têm acesso à fibra óptica. Essa base permite usos digitais que vão além de e-mail e redes sociais, incluindo internet das coisas, IA, medidores inteligentes, serviços públicos digitais, turismo, agropecuária e novos modelos de negócio.

“O Uruguai hoje está posicionado estrategicamente para o mundo do futuro, com uma infraestrutura de telecomunicações muito potente”, disse.

Em sua avaliação, cabos submarinos, data centers e o data center do Google em implantação no país fazem parte da preparação uruguaia para uma economia baseada em dados, e que a infraestrutura digital deve ser acompanhada por capacidade energética. O Uruguai investiu mais de US$ 6 bilhões na transformação do setor elétrico e alcançou quase 99% de produção renovável de energia elétrica. “O Uruguai tomou a decisão democrática de avançar nesse caminho e hoje é líder regional nesse sentido”, informou.

Digitalização de serviços públicos

A digitalização de serviços públicos também foi apresentada como parte da estratégia uruguaia. O ministro do Turismo, Pablo Menoni, afirmou que a pasta avança na digitalização de processos internos e de serviços ligados ao setor. Entre as iniciativas citadas estão o registro de operadores turísticos, a assinatura digital de resoluções ministeriais e a eliminação progressiva da troca de documentos em papel.

Menoni também relacionou digitalização e promoção internacional. Segundo ele, o Uruguai deve competir “por valor e não por preço”. O ministro afirmou ainda que plataformas digitais permitem medir melhor o impacto de campanhas e otimizar o uso de recursos públicos para tornar os gastos mais eficientes.

A experiência de El Salvador foi citada no painel regulatório como exemplo de digitalização administrativa. Jorge Camilo Trigueros, diretor executivo do Centro Nacional de Registros, afirmou que o país implantou 140 serviços online desde 2023, emitiu mais de 250 mil documentos com selo eletrônico e mais de 1 milhão com assinatura eletrônica.

Segundo Trigueros, a digitalização permitiu resolver em um dia processos como solicitações de marcas, pagamentos de anuidades, renovação de patentes, compra e venda de imóveis, constituição de hipotecas e levantamento de hipotecas.

Regulação flexível para infraestrutura crítica

O debate também tratou da regulação da infraestrutura digital crítica. Em painel mediado por Hernán Verdaguer, diretor executivo de assuntos regulatórios da Telecom Argentina, representantes de Argentina, El Salvador e Uruguai defenderam regras mais simples, previsíveis e capazes de acompanhar o avanço da IA, dos data centers, dos satélites, da nuvem e da conectividade de alta capacidade.

Juan Martín Ozores, interventor do Enacom, da Argentina, afirmou que o país iniciou um processo de simplificação regulatória após identificar normas obsoletas, duplicadas e fora de contexto. Para ele, toda norma cria obrigações, controles, processos e estruturas que precisam ser mantidas pelo Estado e cumpridas pelas empresas. Segundo ele, a velocidade da tecnologia torna inadequada uma regulação excessivamente detalhada.

No Uruguai, o presidente da Ursec, Gonzalo Balseiro, afirmou que o conceito de infraestrutura digital já não se limita a redes. Segundo ele, passou a incluir conectividade fixa, conectividade móvel, data centers, cabos submarinos, serviços em nuvem, inteligência artificial e internet das coisas.

Balseiro disse que princípios tradicionais da regulação seguem válidos, como neutralidade tecnológica, promoção de investimentos e desenvolvimento de infraestrutura. Em sua avaliação, o regulador precisa avaliar novas solicitações de espectro, novos serviços e novas aplicações sem perder de vista seus efeitos sobre mercados existentes.

Ao tratar de tecnologias emergentes, como IA e satélites de baixa órbita, Balseiro defendeu cautela. Ele afirmou que o Uruguai adota uma regulação “bastante minimalista” e que instrumentos flexíveis, como sandboxes regulatórios, podem ser considerados quando necessário.

Painel Uruguai 3

Conectividade como inclusão

O secretário de Estado de Telecomunicações e Infraestruturas Digitais da Espanha, Antonio Hernando, apresentou a experiência espanhola em conectividade e regulação digital. Segundo ele, a Espanha está entre os três países mais conectados do mundo em 5G e fibra óptica de banda larga, com cobertura 5G superior a 96% do território.

Ele defendeu que a conectividade seja tratada como instrumento de inclusão. “A conectividade se tornou mais um elemento da dignidade. Não podemos permitir que esta revolução deixe perdedores”, afirmou.

Para ele, a expansão da IA exige governança e regulação. “A IA pode ser o melhor dos nossos sonhos ou o pior dos nossos pesadelos”, disse. Para ele, a transformação digital deve depender da política, “e não somente das empresas”.

Soberania e integração regional

Sánchez relacionou economia digital, soberania e integração regional. Ele disse que há uma tendência de comparar o momento atual a uma nova Guerra Fria tecnológica, mas afirmou que a América Latina precisa observar essa analogia com cautela. Para o secretário, o Uruguai deve manter relações equilibradas com diferentes centros de poder, incluindo Estados Unidos, China e Europa. “O Uruguai precisa avançar em um relacionamento internacional equilibrado com os distintos centros de poder, mas com base na soberania”, afirmou.

Ele também afirmou que não há soberania sem integração regional. Países latino-americanos precisam ampliar sua capacidade de negociação em temas como comércio, cibersegurança, biotecnologia, IA e regras da economia digital. “Nós temos que tentar participar com as maiores capacidades e o maior grau de soberania possível, e para isso precisamos de uma integração regional que nos permita sentar nessa mesa”, disse.

Segundo Sánchez, a região pode ter papel relevante como fornecedora de energia limpa, recursos naturais e insumos críticos para o desenvolvimento da inteligência artificial. Para isso, defendeu uma orientação internacional baseada em soberania, liberdade, democracia e cooperação.

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