Autoridades iranianas acusaram fabricantes ocidentais de equipamentos de rede de falhas críticas durante operações militares conduzidas por Estados Unidos e Israel contra o país, levantando suspeitas de sabotagem cibernética em meio à escalada de tensões no conflito.
Segundo relatos divulgados pela mídia estatal iraniana, dispositivos de empresas como Cisco, Juniper Networks, Fortinet e MikroTik teriam parado de funcionar ou reiniciado de forma inesperada durante ataques realizados contra alvos no país, incluindo a cidade de Isfahan. As autoridades alegam que os equipamentos falharam mesmo após o Irã ter se desconectado da internet global, o que, segundo o governo, indicaria “sabotagem profunda”.
A imprensa iraniana especula que os problemas poderiam ter sido causados por backdoors ou códigos ocultos em firmwares, possivelmente ativados remotamente por satélite ou por temporização pré-programada.
O governo dos Estados Unidos não respondeu diretamente às alegações. Autoridades norte-americanas, porém, já confirmaram a realização de operações cibernéticas contra a infraestrutura de comunicações iraniana. Em briefing no Pentágono em 2 de março, o chefe do Estado-Maior Conjunto, general Dan Caine, afirmou que o U.S. Cyber Command e o U.S. Space Command atuaram como “primeiros agentes” na chamada Operação Epic Fury, lançada no fim de fevereiro. Segundo ele, ações coordenadas nos domínios cibernético e espacial interromperam redes de comunicação e sistemas de sensores do Irã antes do início dos ataques militares.
Embora não haja comprovação das acusações iranianas, os fabricantes citados já enfrentaram episódios documentados de vulnerabilidades no passado. Documentos da Agência de Segurança Nacional (NSA) revelados por Edward Snowden em 2014 mostraram que equipamentos da Cisco chegaram a ser interceptados durante o transporte para instalação de ferramentas de vigilância, sem participação da empresa. Já a Juniper revelou, em 2015, a presença de código não autorizado em seu sistema ScreenOS, capaz de comprometer a segurança de firewalls. A Fortinet reconheceu em 2016 falhas em versões antigas de seu sistema operacional, enquanto roteadores da MikroTik têm sido alvo frequente de botnets e vulnerabilidades exploradas por cibercriminosos.
A narrativa iraniana foi amplificada por veículos estatais chineses. O Centro Nacional de Resposta a Vírus de Computador da China citou as alegações como evidência de possíveis backdoors em equipamentos de origem americana, em meio a disputas geopolíticas no ciberespaço. O episódio também dialoga com acusações ocidentais contra a campanha de espionagem conhecida como Volt Typhoon, atribuída por países da aliança Five Eyes a atores patrocinados pelo Estado chinês.
Paralelamente, o Irã enfrenta um apagão digital sem precedentes. A conectividade no país está reduzida a cerca de 1% dos níveis anteriores ao conflito desde 28 de fevereiro, totalizando 52 dias consecutivos de interrupção — o mais longo bloqueio nacional de internet já registrado, segundo estimativas de monitoramento de tráfego global.

