Por Vicente Moliterno*
Uma corrida que o Brasil não pode perder — e ainda não começou de verdade.
Imagine que, em algum servidor fora do Brasil, uma plataforma de Inteligência Artificial está aprendendo sobre os padrões de saúde dos brasileiros, sobre as vulnerabilidades de nossa infraestrutura crítica, sobre os fluxos financeiros do nosso setor público — e que nenhum regulador, nenhum órgão de governo, nenhum cidadão tem controle sobre isso. Esse não é um cenário de ficção científica. É o risco real de um país que reconhece a importância da IA Soberana, mas ainda hesita em agir.
Os números são perturbadores: uma pesquisa global inédita da International Data Corporation (IDC), encomendada pela Dell Technologies, revelou que 75% dos tomadores de decisão governamentais brasileiros apontam a segurança nacional como o principal retorno de longo prazo da IA Soberana. Três em cada quatro líderes do setor público entendem que está em jogo muito mais do que eficiência operacional — está em jogo a própria autonomia estratégica do país. E, no entanto, metade dos entrevistados brasileiros (50%) ainda não tem planos de investir em IA Agêntica. Reconhecemos o perigo. Mas seguimos parados.
Essa contradição precisa nos provocar. Não como crítica, mas como convite urgente a uma reflexão: em um mundo onde nações que dominam a IA deverão ditar as regras do jogo geopolítico, econômico e tecnológico nas próximas décadas, qual será o lugar do Brasil?
Acompanhar de perto a jornada da transformação digital no setor público brasileiro é presenciar, diariamente, uma busca constante por inovação em meio a desafios complexos. A pesquisa da IDC traz dados valiosos sobre como governos de todo o mundo enxergam o futuro da Inteligência Artificial Soberana e Agêntica, e os resultados revelam um misto de entusiasmo e cautela que se reflete diretamente em nossa realidade — oferecendo caminhos claros sobre como o Brasil pode liderar essa evolução com segurança.
Quando falamos em IA agêntica, não estamos tratando de um conceito abstrato, mas de sistemas capazes de assumir tarefas complexas de ponta a ponta, sob supervisão humana, em diferentes áreas do governo. No atendimento ao cidadão, por exemplo, agentes de IA podem atuar na triagem inteligente de demandas, entendendo o contexto das solicitações, classificando-as corretamente, encaminhando-as para o órgão responsável e acompanhando o fluxo até a resolução. Isso reduz filas, melhora a experiência do usuário e libera servidores para atividades de maior valor agregado.
Na retaguarda, a IA agêntica também pode apoiar processos como análise de benefícios sociais, fiscalização e auditoria, cruzando grandes volumes de dados para identificar padrões, inconsistências e riscos de forma proativa, sempre dentro de regras e políticas definidas pela Administração Pública. Em áreas como saúde e educação, agentes de IA podem ajudar a otimizar o uso de recursos escassos — como leitos, exames, vagas e transporte escolar —, sugerindo alocações mais eficientes e apoiando a tomada de decisão.
A pesquisa da IDC indica que a IA agêntica é vista globalmente como um catalisador fundamental para a adoção da IA: 71% dos tomadores de decisão governamentais acreditam em seu papel acelerador. No Brasil, essa percepção é apenas ligeiramente inferior, com 66,6% dos decisores compartilhando o mesmo otimismo. Este é um reconhecimento generalizado do potencial transformador da IA agêntica para modernizar serviços públicos, otimizar a força de trabalho e entregar mais valor ao cidadão.
Entretanto, quando olhamos para a intenção de investimento, percebemos uma diferença significativa. Enquanto globalmente mais da metade dos líderes (51%) planeja investir em IA agêntica nos próximos 12 a 18 meses, no Brasil essa proporção cai para 44,4%. Este ritmo, embora mais lento, representa uma oportunidade estratégica para o setor público brasileiro planejar e executar investimentos com foco e inteligência, buscando a infraestrutura e a expertise necessárias para que esses planos se concretizem.
Um ponto de convergência — e de extrema relevância para a confiança e a adoção no setor público — é a prioridade dada às salvaguardas. Quase metade dos líderes globais (44%) e 44,4% no Brasil afirmam que só acelerarão a adoção da IA se houver fortes garantias de segurança de dados, privacidade e soberania. Isso sublinha a necessidade imperativa de que a inovação em IA seja acompanhada por um quadro robusto de governança, garantindo que o avanço tecnológico esteja alinhado com a confiança e a proteção dos dados dos cidadãos. A soberania operacional — ou seja, a capacidade de controlar cargas de trabalho críticas de IA dentro da jurisdição nacional — é um elemento-chave para a resiliência e a segurança nacional, sendo um pilar fundamental no desenvolvimento de soluções para o governo.
A pesquisa também destaca a crescente lacuna de habilidades como um desafio transversal: 66% das organizações do setor público globalmente admitem que a tecnologia evolui mais rápido do que a qualificação de sua força de trabalho. No Brasil, 61% dos respondentes citam o mesmo problema, indicando que, embora a situação seja um pouco menos acentuada, a necessidade de desenvolver talentos e capacitação local é urgente para evitar dependências e garantir a autonomia tecnológica do nosso país. O setor privado entende essa necessidade e busca formas de colaborar na capacitação de talentos que impulsionarão a inovação no setor público.
Finalmente, sobre a colaboração público-privada: a visão global é de que ela é crítica para o sucesso (61%). No Brasil, 63,9% coincidem com esse raciocínio e entendem que essas parcerias são a maneira mais efetiva de desenvolver ecossistemas de IA soberanos. Vejo isso como uma enorme oportunidade para estreitar laços e construir modelos de parceria mais eficazes. A expertise e a infraestrutura do setor privado são fundamentais para acelerar a criação de ecossistemas de IA soberanos e para que o setor público brasileiro alcance seus objetivos de transformação.
Os dados da IDC reforçam que o futuro da IA Soberana para o setor público deve ser construído sobre pilares de controle, conformidade e inovação. Para o Brasil, isso significa não apenas reconhecer o vasto potencial da IA agêntica, mas também acelerar os investimentos estratégicos em infraestrutura e capacitação, sempre com foco rigoroso em segurança e governança. É essencial que as decisões que tomamos hoje preparem o país para uma IA que não apenas transforme a eficiência e a qualidade dos serviços públicos, mas que também seja inerentemente segura, resiliente e totalmente compatível com as regulamentações e os valores locais.
A pergunta não é mais se o Brasil adotará a IA Soberana. A pergunta é quando — e se esse quando ainda será a tempo de garantir que os dados, as decisões e o futuro do país permaneçam em mãos brasileiras.
(*) Vicente Moliterno é Diretor de Vendas para Setor Público na Dell Technologies Brasil

