
A atualização metodológica da Anatel para medir habilidades digitais no Brasil trouxe um diagnóstico mais amplo, mas também reforçou um sinal de alerta: as áreas de Segurança e Criação de Conteúdo Digital aparecem entre as mais pressionadas no período recente, com recuos em competências consideradas mais avançadas e ligadas ao uso produtivo e protegido da internet.
A nova metodologia do estudo de habilidades digitais dos brasileiros amplia de nove para 20 os indicadores analisados e passa a usar referência alinhada à metodologia da UIT e europeia.
No recorte geral, a proporção de brasileiros com “nível agregado acima do básico de habilidades digitais” caiu de 14,1% em 2022 para 13,6% em 2025. Ou seja, conhecimentos digitais para utilização mais avançada da tecnologia apresentaram regressão.
Entre as áreas de competência, o próprio estudo destaca retração em Segurança e em Criação de Conteúdo Digital, além de registrar aumento da proporção de pessoas sem habilidades nessas áreas entre a população de 60 anos ou mais.
Isso é importante porque, segundo o presidente da Anatel, Carlos Baigorri, as conclusões do estudo vão contribuir para a formulação de iniciativas para ampliar a familiaridade do brasileiro com as tecnologias digitais.
“A partir do cruzamento de informações da TIC Domicílios e da UIT, estamos elaborando indicadores que ajudarão o Governo Federal e o Ministério das Comunicações a desenhar políticas públicas e medidas regulatórias para aumentar as habilidades digitais da população, contribuindo para uma conectividade significativa e um ambiente digital mais seguro”, afirmou Baigorri.
Segurança tem dupla retração e baixa prevenção
O estudo afirma que reduziu o conhecimento entre brasileiros de uso de recursos de segurança. Historicamente, houve crescimento em 2023, depois recuou em 2024 e 2025, o que fez dessa a única área com dupla retração no período recente. Segundo a Anatel, as duas habilidades que compõem essa competência contribuíram para a redução: configurar medidas de segurança eficazes para proteger dispositivos e contas; e alterar configurações de privacidade em aparelho, conta ou aplicativo.
A explicação é que a massificação do acesso à internet não vem sendo acompanhada por maior conscientização sobre riscos cibernéticos. A complexidade crescente das ameaças digitais, como phishing e ransomware, pode estar superando a capacidade de defesa do usuário médio, produzindo uma postura de vulnerabilidade ou “fatalismo digital”. O baixo letramento informacional também é determinante, já que identificar links suspeitos e fraudes depende de capacidade prévia de avaliar dados e informações.
A preocupação declarada com proteção de dados não tem se convertido, na mesma medida, em comportamento preventivo. Para a Anatel, há baixa adesão a medidas de privacidade e barreiras educacionais adicionais, porque configurar mecanismos de segurança muitas vezes exige leitura proficiente, inclusive de termos técnicos em inglês, e compreensão de lógica de sistemas.
Criação de conteúdo digital perde fôlego
Em Criação de Conteúdo Digital, a Anatel identifica queda consistente em parte das atividades e associa o comportamento a mudanças na própria dinâmica da internet, à menor disponibilidade de computadores e ao perfil de uso mais transacional das redes. O estudo aponta, por exemplo, recuo da atividade de editar textos, planilhas e apresentações usando ferramentas digitais, de 16,4% em 2022 para 13% em 2025. Mas faz uma ressalva metodológica: a pergunta atualmente usada na pesquisa não mede exatamente edição online de documentos, e sim criação ou atualização de blogs, páginas de internet ou websites.
Por isso, parte da retração pode refletir a perda de espaço dos blogs pessoais tradicionais, com migração da atenção para mídias sociais e profissionalização crescente da criação e manutenção de sites. O documento defende, inclusive, ajuste futuro na formulação da pergunta para aderir melhor ao indicador proposto pela UIT.
Além disso, o estudo relaciona essa área à disponibilidade de equipamentos. Apenas 32% dos domicílios tinham computador em 2025, e 35% das pessoas eram usuárias desse tipo de equipamento. Atividades como edição, planilhas e programação dependem mais de telas maiores, teclado e mouse, enquanto o uso dominante do celular pode deslocar práticas criativas para dentro de aplicativos, sem que o usuário as perceba como criação multimídia. Soma-se a isso a persistência de desigualdades socioeconômicas e educacionais, que limitam competências intermediárias e avançadas e reduzem espaço para produção autoral mais estruturada.
Desigualdades persistem por região, renda e escolaridade
As diferenças regionais e socioeconômicas seguem marcantes. Segundo a Anatel, as regiões Norte e Nordeste, as áreas rurais, as classes DE, as pessoas com menor escolaridade e as populações pretas e pardas apresentam proporções menores de indivíduos com habilidades digitais em nível básico e acima do básico.
A faixa etária também aparece como fator relevante. Em geral, a população entre 16 e 34 anos está mais preparada para o ambiente digital do que os demais grupos, especialmente quando comparada a crianças de até 15 anos e idosos com 60 anos ou mais.
O conselheiro Octavio Pieranti relacionou a inclusão digital à capacidade de uso efetivo das tecnologias. “A efetiva inclusão digital é fruto não só do acesso às tecnologias, mas também da habilidade da população em saber usá-las. Isso é fundamental na construção de um ambiente em que todos tenham as mesmas condições e oportunidades”, disse.
O relatório propõe ainda objetivos de longo prazo para que o Brasil alcance níveis de excelência, como por exemplo, uma proporção de 58% da população alfabetizada em informação e dados em 2030, 71% em 2040 e 83% em 2050.

A superintendente de Relações com Consumidores da Anatel, Cristiana Camarate, afirmou que o diagnóstico atualizado pode ajudar a direcionar ações para enfrentar desigualdades. “Este estudo atualiza o retrato das habilidades digitais no Brasil e mostra que, para avançarmos, precisamos enfrentar de forma coordenada as disparidades regionais e socioeconômicas, priorizando a segurança e o uso produtivo”, declarou.
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