Com receita em queda, teles vivem o superciclo de investimentos em infraestrutura digital

s operadoras de telecomunicações, mesmo tendo consolidado a infraestrutura de 5G e fibra óptica, enfrentam agora um desafio estrutural de rentabilidade. De acordo com o relatório Global Telecom Outlook da PwC, a disposição dos consumidores a pagar pelos serviços está estagnada ou em queda e a expectativa é que a receita média mensal por usuário (ARPU) móvel global sofra uma leve retração, passando de US$ 6,32 em 2024 para US$ 6,20 em 2029, em média, globalmente.

Embora a demanda esteja disparando com o avanço da inteligência artificial (IA) e de grandes clusters de computação, o crescimento lento da receita exige uma reformulação do modelo de margem das telecomunicações. A projeção é de que a receita global de serviços de telecom suba de forma modesta entre 2024 e 2029, passando de US$ 1,15 trilhão para aproximadamente US$ 1,32 trilhão em todo o mundo, o que representa uma taxa de crescimento anual composta (CAGR) de apenas 2,8. Nesse cenário, a integração da IA para reduzir custos de serviço e aumentar a produtividade se torna essencial.

Para mercados com forte presença de fibra, a adoção do modelo de negócios “ServeCo”, focado em defender a receita incluindo serviços digitais aos pacotes, como wi-fi premium, segurança cibernética, entretenimento, armazenamento em nuvem e suporte residencial surge como um ponto positivo. Essa estratégia de oferta de soluções completas de serviços apresenta-se como um fator determinante para o aumento da fidelização, criando barreiras competitivas mais robustas.

“O tráfego global de telecomunicações está em alta, mas o crescimento modesto da receita exige que as operadoras reinventem seus negócios e operações. O desenvolvimento de um ecossistema de novas soluções de conectividade torna-se a base fundamental para o crescimento de receita e para a redução da dependência do serviço core, permitindo que as empresas gerem diferenciação competitiva e capturem valor real por meio de ofertas de serviços mais inovadoras”, afirma Ricardo Queiroz, sócio e líder do setor de tecnologia, mídia e telecomunicações (TMT) da PwC Brasil.

Superciclo de investimentos em infraestrutura e data centers

A expansão da inteligência artificial e dos data centers está catalisando um novo superciclo de investimentos em infraestrutura digital. Hypersalers e investidores institucionais aceleram o desenvolvimento de complexos clusters de computação, sistemas que integram múltiplos computadores e exigem redes de interconexão de altíssima confiabilidade e latência mínima.

Por outro lado, a intensidade dos gastos de capital (Capex) das operadoras em ativos de longo prazo — como torres, equipamentos de rádio e fibra óptica — recuou de 26,9% da receita em 2022 para 22,9% em 2024, na perspectiva global. Para o futuro, a projeção é de uma retomada tímida, com uma taxa de crescimento anual composta (CAGR) marginal de 0,62% ao fim do período analisado, movimento que será tracionado pela implementação do 5G-Advanced e pelas etapas iniciais do 6G.

Transição para operações nativas em IA

O estudo da PwC ainda mostra que a inteligência artificial deixa de ser o estágio final da transformação digital para se tornar o motor imediato de competitividade no setor de telecomunicações. Executivos focados em crescimento já utilizam agentes de IA de forma simultânea para reduzir custos operacionais, elevar a eficiência e modernizar sistemas legados, ao mesmo tempo em que aprimoram a experiência de clientes e colaboradores.

O levantamento consolida essas frentes de reinvenção no que chama de ‘TelcOS’. Nesse formato, a inteligência artificial atua tanto como um impulsionador de demanda (elevando o padrão de automação e controle de custos) quanto como o meio para gerenciar e satisfazer essa demanda.

“A questão estratégica deixou de ser se as operadoras se tornarão nativas em IA, mas com que rapidez farão a transição dos projetos isolados para um novo sistema operacional de negócios”, diz Queiroz. “Na prática, isso significa parar de tratar a inteligência artificial como um passo futuro e usar agentes inteligentes hoje para reduzir custos, modernizar legados e impulsionar a eficiência.”

Evolução do mercado de IoT e o foco em plataformas

O mercado de Internet das Coisas (IoT) passa por uma mudança estrutural na captura de valor. A maior parte do retorno financeiro está sendo absorvida por provedores de plataformas de capacitação de aplicativos (AEPs) e consultorias em detrimento das operadoras.

As AEPs devem crescer cerca de 31% ao ano até 2029, alcançando US$ 250 bilhões em receitas, enquanto as receitas estritamente ligadas à conectividade tendem a se manter estagnadas abaixo de US$ 10 bilhões. Para evitar a comoditização, as empresas de telecomunicações devem priorizar soluções integradas e atuações verticalizadas em setores de alto valor, como cidades inteligentes e a indústria automotiva.

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