Brasil, Costa Rica e Uruguai defendem conectividade além da infraestrutura

Conectividade

A construção de políticas públicas voltadas à conectividade precisa ir além da expansão da infraestrutura e avançar para o melhor uso da Internet com serviços capazes de transformar a vida das pessoas. Esse foi um consenso entre os representantes dos órgãos reguladores do Brasil, Costa Rica e Uruguai durante painel, realizado hoje, 6, na Abrint Global Congress 2026. Um dos principais destaques do debate foi a necessidade dar espaço a conectividade significativa para o desenvolvimento de aplicações concretas nas áreas de saúde, educação, serviços públicos e desenvolvimento econômico.

Em um cenário global onde 2,6 bilhões de pessoas ainda permanecem desconectadas e em que são necessários mais de US$ 2 trilhões em investimentos para reduzir esse gargalo, os painelistas defenderam que o avanço da conectividade dependerá de marcos regulatórios estáveis, ambiente competitivo e coordenação entre Estado, iniciativa privada, academia e sociedade civil.

O presidente da Anatel, Carlos Baigorri, afirmou que a transformação do mercado brasileiro ocorreu a partir da redução da carga regulatória e da adoção de assimetria regulatória para pequenos provedores. Segundo ele, até 2010 o mercado de banda larga estava concentrado nas concessionárias e submetido a um modelo regulatório que criava barreiras de entrada. A mudança regulatória permitiu o crescimento dos provedores de pequeno porte, que ampliaram a competição e levaram conectividade a regiões antes não atendidas.

Hoje, de acordo com Baigorri, o Brasil se tornou referência em banda larga fixa justamente pela expansão dos provedores regionais, responsáveis por abrir novas fronteiras e incluir milhões de brasileiros no mercado digital. Ele ainda afirmou que o Brasil pretende levar para a UIT – União Internacional de Telecomunicações uma visão latino-americana sobre “conectividade significativa”, conceito que busca ir além da simples disponibilidade de acesso.

“O desafio global não é apenas conectar os 2 bilhões de pessoas ainda sem acesso, mas garantir que a conexão seja acompanhada de aplicações úteis e serviços digitais capazes de transformar a vida da população. Temos um projeto, em conjunto com a Costa Rica, para levar aplicações de telemedicina para comunidades distantes da Amazônia. O Brasil e a América latina têm capacidade de contribuir com o conceito de conectividade significativa”.

Para Baigorri, os investimentos necessários para reduzir o déficit global de conectividade virão majoritariamente do setor privado, o que exige previsibilidade regulatória. “O investidor precisa saber o que vai acontecer. Isso depende de reguladores capacitados, políticas públicas bem desenhadas e diálogo permanente com sociedade civil, provedores, governo e academia”, resumiu.

O Brasil disputa pela primeira vez uma vaga de vice-secretário geral da UIT com a candidatura de Baigorri, resultado de uma articulação iniciada há quatro anos. A eleição deve ocorrer em novembro.

Costa Rica combina fundo universal e obrigações de cobertura

Do lado da Costa Rica, o presidente da Superintendencia de Telecomunicaciones (Sutel) Carlos Watson apresentou a experiência costarriquenha, que abriu seu mercado de telecom em 2011, após décadas de monopólio estatal. Desde então, o país passou de um para três operadores móveis. No mercado de fibra, quatro grandes operadores concentram cerca de 80% das conexões, enquanto pequenos provedores atendem o restante do mercado.

Watson destacou o papel do fundo universal Fonatel (Fondo Nacional de Telecomunicaciones da Costa Rica), que soma US$ 508 milhões e atende cerca de 18% da população vulnerável da Costa Rica. Além disso, o órgão regulador mudou a lógica dos leilões de espectro. Em vez de priorizar arrecadação, o país passou a incluir obrigações de infraestrutura, exigindo instalação de radiobases em áreas remotas com baixa cobertura. Segundo ele, a meta é evitar que populações vulneráveis precisem esperar entre três e cinco anos para receber novas tecnologias. “O objetivo é que todos tenham acesso ao mesmo tempo”, afirmou.

Watson também afirmou que o conceito de conectividade significativa já está em curso, com uso crescente da internet para trabalho remoto, serviços bancários e educação, mas ressaltou que o próximo passo é a digitalização completa dos serviços públicos.

Uruguai aposta em estatal e universalização da fibra

Representando o governo uruguaio, Pablo Siris destacou que o país seguiu um caminho diferente de seus vizinhos ao manter sua operadora estatal como protagonista da política de universalização. A Antel iniciou a expansão de fibra óptica em 2008 e, com investimentos próprios de US$ 1,15 bilhão, já alcançou 99% do território uruguaio. A meta é conectar integralmente todos os municípios até 2028.

Além da infraestrutura, o Uruguai estruturou políticas públicas voltadas ao uso da conectividade, incluindo distribuição de computadores para estudantes, conexão de órgãos públicos e universidades com enlaces de até 100 gigabits.

Siris afirmou que o país já caminha para a universalização do acesso, mas enfrenta desafios relacionados ao uso digital por diferentes faixas etárias. “Enquanto 75% dos jovens utilizam inteligência artificial, apenas 6% da população acima de 60 anos faz uso dessas ferramentas. O desafio agora não é apenas conectar, mas garantir inclusão digital em todas as faixas da população”, afirmou.

Apesar de trajetórias regulatórias distintas, os três reguladores concordam que a conectividade do futuro dependerá menos da expansão da infraestrutura da rede e mais da capacidade de transformar acesso em uso produtivo, resiliente, seguro e relevante para a população.

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