Por que gigantes de telecom dos EUA precisam ser baseadas em software?

Carlos Campos - gigantes de telecom

Por Carlos Campos* – Durante décadas, o poder no setor de telecomunicações foi medido por quem possuía o maior inventário de torres, cabos e espectro. Ser um detentor de infraestrutura pesada era o topo da cadeia alimentar, enquanto as operadoras virtuais eram vistas apenas como inquilinas desse império físico. No entanto, o jogo virou: para continuar alcançando o cliente onde a terra termina, os gigantes de telecom agora precisam aprender a operar na lógica da agilidade programável.

Um recente movimento nos Estados Unidos ilustra perfeitamente essa mudança de paradigma. AT&T, T-Mobile e Verizon, as chamadas “Big Three” e rivais históricos que sempre priorizaram suas próprias redes, anunciaram uma joint venture inédita para oferecer cobertura de satélite integrada. O objetivo central é eliminar as “zonas mortas” onde o sinal terrestre não chega, sem, no entanto, ceder o controle do cliente final para players de conectividade via satélite.

A dinâmica competitiva trazida pelo advento das operadoras de redes de satélites, tais como Starlink e Amazon Leo, é a grande catalisadora dessa urgência. Ao contrário das operadoras tradicionais que dependem de torres terrestres limitadas pela geografia, estas empresas estão construindo uma constelação de satélites de baixa órbita que ignora fronteiras físicas e infraestruturas locais. Com a recente aquisição de espectro da EchoStar por US$ 20 bilhões, a Starlink, por exemplo, deixou de ser apenas uma provedora de internet de nicho para áreas rurais para se tornar um operador híbrido capaz de conectar smartphones diretamente ao satélite, desafiando o modelo de negócios das operadoras de solo.

Ao buscarem o céu para combater essa ameaça, as gigantes de telecom estão se tornando exatamente o que passaram anos gerenciando: operadores de órbita baseados em software em uma rede que não lhes pertence. Eles deixam de ser proprietários absolutos para se tornarem inquilinos de infraestruturas espaciais que rodam sobre protocolos digitais modernos.

Ao se voltarem ao céu diante dessa ameaça, as gigantes de telecomunicações tornam-se exatamente aquilo que passaram anos administrando: operadores virtuais sobre redes satelitais que não controlam. De donas da infraestrutura, passam a inquilinas de uma nova camada de conectividade, construída no espaço.

A infraestrutura física não é mais o destino final

Essa transição para um modelo de operação fluido reflete uma tese central para o futuro do setor: a posse do hardware tornou-se secundária à inteligência da nuvem. O mercado está percebendo que a conectividade deve ser invisível e agnóstica, e os números validam essa migração do solo para a órbita. Projeções da Juniper Research apontam que o faturamento de banda larga via satélite deve ultrapassar os US$ 20 bilhões até 2030, um crescimento que pavimenta o caminho para que o valor real seja capturado por quem dominar a orquestração dessas redes.

Prova disso é que, paralelamente ao crescimento do hardware espacial, a receita global de APIs de rede deve ultrapassar os US$ 8 bilhões já em 2027. Esse número mostra que o mercado está trocando a compra de acesso bruto pela compra de conectividade programável. Se até as maiores operadoras do mundo admitem que precisam de orquestração via software para escalar e cobrir “buracos” de sinal, não faz mais sentido que o ecossistema de tecnologia continue preso a silos de hardware local.

Da infraestrutura para a orquestração

O que estamos testemunhando é a transformação dos antigos detentores de ativos físicos em provedores de serviços que precisam garantir que o dispositivo do usuário funcione, não importa se o sinal vem de uma torre a 2 km de distância ou de um satélite a 500 km de altitude. A soberania hoje não vem de ser dono da torre, mas de ser o dono da interface e da inteligência que decide o melhor caminho para o dado.

Nesse novo cenário, a agilidade torna-se o ativo mais valioso. O modelo tradicional de telecomunicações, engessado por negociações bilaterais complexas e hardware proprietário, não possui a elasticidade necessária para o mundo da Internet das Coisas (IoT) e das aplicações globais. A migração para uma estrutura baseada em software permite que a conectividade acompanhe o ritmo do desenvolvimento digital, possibilitando implementações muito mais rápidas e uma visibilidade granular que era impossível quando estávamos restritos aos limites físicos de uma única rede.

Além disso, a convergência entre satélite e celular sinaliza o fim da conectividade fragmentada. O sucesso de um negócio agora depende da capacidade de abstrair essa complexidade técnica para o usuário final. Empresas que insistem em manter o foco na infraestrutura bruta correm o risco de se tornarem irrelevantes, enquanto aquelas que dominam a camada de orquestração, transformando redes heterogêneas em uma experiência de conexão fluida, serão as que ditarão as regras da próxima década.

O movimento das grandes operadoras americanas é uma confissão: a era da conectividade tradicional chegou ao seu limite. Para “ir mais alto”, elas tiveram que aceitar a lógica da virtualização da infraestrutura. O futuro não depende de quem é o dono da rede, mas de quem oferece a plataforma mais inteligente para transformar redes complexas em uma experiência simples, onipresente e digital.

* Carlos Campos é Vice-presidente de Vendas LATAM e Diretor Geral da emnify no Brasil

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