Por Juarez Quadros do Nascimento*
O Estado de S. Paulo (Estadão), em 26 de maio de 2026, em um Editorial com o título: “A inteligência artificial e a humanidade”, publicou posicionamento em relação à Encíclica Magnifica Humanitas – a primeira do Papa Leão XIV – divulgada recentemente.
O Estadão destacou que a humanidade voltou a construir torres para conquistar o paraíso. Não de pedra, mas de dados, chips, modelos matemáticos e plataformas capazes de escrever textos, reconhecer rostos, prever comportamentos, moldar a atenção e influenciar decisões em escala planetária. Que na Encíclica, Leão XIV adverte que a questão crucial da era da Inteligência Artificial não está na potência dessas ferramentas, mas no tipo de civilização que se organiza ao redor delas.
Que Leão XIV reconhece a Inteligência Artificial como capaz de ampliar capacidades humanas, reduzir sofrimento, acelerar descobertas científicas, melhorar vidas. Mas o Papa adverte que a tecnologia não é neutra: “Toda escolha de design reflete uma visão de humanidade”. Sistemas automatizados embutem prioridades, incentivos, critérios de eficiência e concepções implícitas sobre o que merece atenção, recompensa ou exclusão.
Que uma civilização orientada pela lógica algorítmica tende a reinterpretar a experiência humana segundo categorias de cálculo, previsão e otimização. “Para um algoritmo, um erro é uma falha a ser corrigida; para uma pessoa, porém, o erro pode ser catalisador de uma transformação profunda.” Algoritmos corrigem desvios para maximizar resultados. Pessoas amadurecem por meio de limites, arrependimento, experiência e responsabilidade.
Que a Inteligência Artificial não possui consciência moral, vulnerabilidade ou capacidade de sacrifício. Não há amor artificial. “Nenhum sistema computacional pode criar um coração capaz de se entregar.” A observação pode soar teológica e filosófica, mas toca um nervo crucial numa cultura fascinada por transformar seres humanos em projetos permanentemente aperfeiçoáveis. Dados, infraestrutura computacional, plataformas digitais e modelos de Inteligência Artificial estão sob controle de um número reduzido de governos e corporações. Quem controla esses sistemas influencia consumo, reputação, trabalho e imaginação coletiva.
Que o risco maior da Inteligência Artificial está menos em máquinas que se pareçam conosco, e mais numa sociedade que enxergue a si mesma segundo a lógica das máquinas. Leão XIV lembra que “um rosto humano que pede para ser contemplado permanece no centro da nossa história”. A advertência cristológica, lida em registro antropológico, é uma síntese provocadora para um tempo fascinado por sistemas capazes de processar volumes infinitos de informação e cada vez mais esquecido de contemplar aquilo que continua irredutivelmente humano.
O.K., vamos lá. Importa ressaltar que a humanidade está diante de duas escolhas: construir uma nova Torre de Babel ou reconstruir Jerusalém. A frase define que: “A Inteligência Artificial precisa ser desarmada.” O Papa Leão XIV sabe que a menção é forte. Desarmá-la significa libertá-la da mentalidade de competição armada, não apenas militar, mas econômica, filosófica e cognitiva.
A corrida por algoritmos cada vez mais poderosos, move-se pelo desejo de dominância geopolítica ou comercial. Desarmar não significa rejeitar a tecnologia, mas impedir que ela domine a humanidade. Simplesmente regulá-la é insuficiente. Provavelmente, o Papa não está pedindo regulação. Está dizendo que a regulação não basta. Pois ela amplifica o poder de quem já possui recursos econômicos, expertise e acesso a dados. Portanto, quem constrói a inteligência artificial não pode ser quem define as suas regras.
Em artigo de minha autoria, publicado no site “Convergência Digital”, coluna Opinião, em 20/04/2023, com o título “Parar o relógio da Inteligência Artificial afastaria o Dia do Juízo Final?”, destaquei que: “Em todas as nações cresce a preocupação com relação ao avanço da Inteligência Artificial. O temor e a controvérsia fervem no mundo digital. O que fazer? Parar o relógio da IA afastaria o Dia do Juízo Final? Nesse contexto, caberia citar que “Os homens não devem brincar de Deus antes de aprenderem a ser homens.” (Paul Ramsey, educador americano, no livro: “Homem fabricado: A ética do controle genético”).
E mencionei mais ainda: O avanço da Inteligência rtificial é uma questão delicada a enfrentar. Trata-se de um tema moral a envolver as maravilhosas, misteriosas e interligadas forças do ser humano e da natureza. Pelo qual, caberia citar que “A vida é uma misteriosa trama de acaso, destino e caráter.” (Wilhelm Dilthey, filósofo alemão, no livro: “A construção do mundo histórico nas ciências humanas”).
Assim, repito o final do meu artigo: “Não há como parar o relógio da Inteligência Artificial. A ciência não retrocede, portanto, não há como esquecer esse conhecimento. Assim, há que se encontrar um caminho prudente, equilibrado e controlado para tratar do tema Inteligência Artificial.”
* O autor é Engenheiro Eletricista, Evangelista Regulatório e Tecnológico. Foi ministro de Estado das Comunicações e presidente da Anatel.