
Durante painel na Abrint Global Congress, realizado nesta quinta-feira, 7, a expansão da conectividade na Amazônia uniu governo, operadores, financiadores e provedores regionais. O desafio da expansão das redes de comunicação na região está além da implantação e agora alcança o patamar de ativação, manutenção, sustentabilidade econômica e uso efetivo da capacidade instalada.
Hoje, o programa Norte Conectado soma nove infovias subfluviais e o modelo adotado prevê infraestrutura compartilhada em consórcio aberto, onde setor público utiliza a rede para suas demandas institucionais, enquanto a operação e a manutenção ficam sob responsabilidade do setor privado.
Eduardo Grizendi, diretor de engenharia e operações da RNP, destacou que a Infovia 02, uma das principais rotas do programa, possui cerca de 2 mil quilômetros de fibra óptica entre Manaus e Atalaia do Norte, no Amazonas, conectando 19 localidades ao longo da rota, incluindo Tabatinga, na fronteira com Colômbia e Peru.
Apesar do avanço da infraestrutura, Grizendi chamou atenção para os desafios operacionais da rede. Segundo ele, a Infovia 01 enfrenta interrupções, embora a fibra permaneça iluminada até Itacoatiara e Parintins, enquanto a Infovia 02 ainda opera sem redundância. “O consórcio entrega a infraestrutura, mas não presta o serviço de conectividade. Ter a fibra não significa automaticamente internet na escola ou no posto de saúde. É preciso que provedores, empresas públicas e outros agentes façam a conexão final.”
Monitoramento preventivo entra na agenda
Outro ponto levantado pela RNP foi a necessidade de evoluir da manutenção corretiva para um modelo preventivo. Segundo Grizendi, já existem tecnologias capazes de identificar impactos físicos na fibra antes de um rompimento, incluindo sensores capazes de detectar, por exemplo, contato do cabo com rochas no leito dos rios. “Não faz sentido descobrir o problema apenas depois que o cabo rompe. Hoje já existem tecnologias capazes de prever isso”, enfatizou.
A avaliação é de que a operação das infovias exige atuação coordenada entre Anatel, Ministério das Comunicações, RNP, EAF e setor privado para reduzir o tempo de indisponibilidade e ampliar a confiabilidade da rede.
BID vê integração regional e novas rotas de expansão
Para Daniel Cavalcanti, consultor externo do BID, o projeto brasileiro despertou interesse regional e pode se transformar em uma plataforma de integração digital entre países amazônicos.
Ele destacou que a infraestrutura já se aproxima de fronteiras estratégicas, como Tabatinga, na divisa com a Colômbia, e que a Infovia 04, em direção a Boa Vista e à fronteira com a Guiana, amplia esse potencial.
O banco vem cruzando dados de infraestrutura, educação, saúde e topologia de rede para identificar áreas com maior potencial de expansão. Segundo Cavalcanti, a próxima etapa será encontrar modelos que combinem investimentos em Capex e Opex capazes de sustentar economicamente a interiorização dos serviços digitais. “A conectividade só se sustenta no longo prazo se o modelo econômico fechar”, sintetizou.
Cronograma
A CEO da EAF, Gina Marques, disse que o cronograma físico das infovias vem avançando, mas reconheceu um descompasso entre a implantação da infraestrutura e o uso efetivo da rede. Segundo ela, as infovias 3 e 4 devem entrar em operação efetiva; a Infovia 02 está em fase final de vistoria técnica para início da operação; a Infovia 05 aguarda licenciamento, com previsão de início de implantação em junho; e as infovias 6 e 8 seguem com cronograma e viabilidade operacional em avaliação.
O cronograma original de ativação e uso efetivo previa entregas entre 2027 e 2028, mas a executiva disse que o calendário ainda está em discussão. A EAF também informou o uso de energia renovável em seus Cenads, pequenos centros de operações de rede que apoiam a distribuição e o monitoramento da conectividade nas cidades atendidas.
Provedores regionais alertam para alto custo da ativação
Na visão de Jesaias Arruda, vice-presidente da Abranet, a chegada da infraestrutura não elimina os desafios dos pequenos e médios provedores da região. Segundo ele, a ativação da rede na Amazônia exige alto investimento, enfrenta fatores ambientais como cheias dos rios e rompimentos de cabos, além de depender de múltiplas tecnologias.
Ele citou o caso de um provedor em Tabatinga que implantou uma estrutura com 80 antenas via satélite para complementar a conectividade local, mesmo com a chegada da Infovia 02.
Para Arruda, a rede que liga Manaus a Tabatinga representa um divisor de águas para aplicações como telemedicina, serviços bancários e inclusão digital. “Existe uma janela importante para reduzir o gap de conectividade significativa no Norte”, afirmou.
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