Inevitáveis, satélites de baixa órbita exigem nova estratégia de soberania

Os satélites de órbita baixa (LEO) tendem a se tornar parte inevitável da infraestrutura de conectividade, mas sua adoção impõe novos desafios para garantir soberania sobre dados e comunicações. A avaliação foi consenso entre especialistas no painel sobre o papel dos satélites multiórbitas, realizado nesta quarta, 29/4, durante o Fórum Telebras Conecta, em Brasília.

O diretor de vendas e projetos governamentais da SES, Marcos Coseglio afirmou que a soberania plena ainda está mais associada aos satélites geoestacionários, nos quais o país detém controle total do artefato, dos gateways e do fluxo de informações. Segundo ele, o modelo ideal para aplicações críticas, como as militares, envolve ativos nacionais com controle integral. No entanto, destacou que arquiteturas multiórbitas, combinando GEO, MEO e LEO, são essenciais para equilibrar soberania e desempenho, permitindo que diferentes aplicações utilizem diferentes níveis de controle.

Na mesma linha, Mauro Wajnberg, country manager da Telesat, destacou que a migração para órbitas mais baixas responde a demandas por menor latência e maior capacidade. Ele explicou que, ao contrário dos satélites geoestacionários, com vida útil média de 15 anos e capacidade limitada, as constelações LEO operam com centenas ou milhares de satélites, oferecendo escala muito superior e redução de custos por megabyte.

Wajnberg ponderou, no entanto, que a soberania não desaparece nesse modelo, mas passa a ser construída por camadas. “É possível ter soberania dentro de uma constelação LEO”, afirmou, citando mecanismos como gateways dedicados em território nacional, garantia de que os dados não saiam do país e uso de cercas virtuais (geofencing). Segundo ele, a criação de uma constelação nacional exclusiva pode custar bilhões de dólares e não se justificar economicamente, abrindo espaço para modelos híbridos, como subconstelações ou uso compartilhado com atributos de controle.

Diretor regulatório de mercados globais da Viasat, Ryan Johnson reforçou que a soberania deve ser tratada em diferentes níveis, conforme a sensibilidade das aplicações. Ele citou que comunicações militares tendem a exigir controle mais restrito, enquanto outras podem operar em ambientes compartilhados, desde que com governança adequada. Também defendeu a abertura do mercado e do uso de espectro para múltiplos operadores, como forma de estimular competição e permitir que países desenvolvam capacidades locais sem depender de poucos fornecedores globais.

Já Sergio dos Santos Chaves, diretor comercial da Hispasat, ressaltou que a soberania está diretamente ligada ao controle do tráfego de dados, independentemente da órbita utilizada. Para ele, um dos principais riscos está na localização de gateways fora do país, o que pode comprometer a visibilidade e o controle das comunicações. “Os dados devem circular dentro do próprio país”, afirmou, ao relacionar o tema às exigências da Lei Geral de Proteção de Dados.

Para as empresas de satélites, o futuro da conectividade passa por uma combinação de tecnologias orbitais, em que satélites geoestacionários continuam relevantes para aplicações estratégicas, enquanto constelações de órbita baixa ganham protagonismo em serviços de banda larga, mobilidade e inclusão digital. Nesse cenário, a soberania deixa de ser um atributo binário e passa a depender de arquitetura, governança e investimentos, em um equilíbrio entre autonomia nacional e viabilidade econômica.

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