
Por Aníbal Diniz* e Rodrigo Schuch Wegman** – O mundo está entrando em uma nova fase da economia digital, na qual dados, capacidade computacional e energia passam a ocupar o centro das disputas geopolíticas. Se, no passado recente, a prioridade dos países foi expandir o acesso à internet, hoje o desafio estratégico é outro: garantir que os dados sejam processados com segurança e soberania, sob quais regras e em benefício de quem.
Essa mudança de paradigma já está sendo conduzida de forma efetiva pelas nações líderes no mundo. Os Estados Unidos, por exemplo, têm adotado uma visão claramente estratégica ao associar política energética, inovação tecnológica e segurança nacional. Não se trata apenas de incentivar data centers em seu território, mas de estruturar cadeias globais de suprimento de energia e infraestrutura digital que sustentem a liderança americana em inteligência artificial.
O contexto geopolítico atual associa diretamente a disputa por capacidade computacional com a oferta de energia. Dessa forma, a competição por data centers deixa de ser apenas econômica e passa a reconfigurar relações regionais e prioridades diplomáticas.
Diante desse cenário, a pergunta que se impõe é simples: qual é a estratégia do Brasil?
O país reúne condições objetivas excepcionais para se tornar um dos principais polos globais de data centers. Possui uma das matrizes energéticas mais limpas do mundo, com forte participação de fontes renováveis, além de uma ampla disponibilidade de energia competitiva, o que a torna, ao mesmo tempo, mais econômica que as fontes tradicionais e menos suscetível à variação de preços das commodities internacionais. Conta também com uma infraestrutura de conectividade robusta, construída ao longo dos últimos anos por milhares de prestadoras de pequeno porte – PPPs ou prestadoras regionais, que levaram fibra óptica a praticamente todo o território nacional.
Ainda assim, o Brasil permanece aquém de seu potencial. A ausência de uma política pública estruturada, previsível e coordenada tem limitado a atração de investimentos para o setor de data centers. Projetos são analisados de forma fragmentada, enfrentam insegurança regulatória e carecem de instrumentos claros de incentivo.
Essa lacuna institucional se tornou ainda mais evidente com a frustração da aprovação do REDATA — iniciativa legislativa concebida justamente para criar um ambiente mais competitivo e atrativo para investimentos em data centers no Brasil. A saída momentânea desse tema da agenda política mais imediata representou a perda de uma oportunidade relevante, não apenas sob a ótica econômica, mas sobretudo estratégica, ao retirar do país um instrumento potencial de coordenação entre as políticas energética, digital e tributária. No momento em que as principais economias do mundo avançam de forma coordenada na atração de infraestrutura crítica para processamento de dados, a incapacidade de consolidar o regime tributário especial e de manter o tema no centro da agenda política sinaliza hesitação institucional e compromete a capacidade do Brasil de disputar investimentos em escala global.
Apesar desse contratempo inicial, o tema continua na pauta do Congresso Nacional, por meio do Projeto de Lei (PL) nº 278/2026, que reproduz integralmente o texto da proposta do Poder Executivo, que instituiu o REDATA. Essa nova proposição já foi aprovada na Câmara dos Deputados. No Senado, um requerimento de líderes, solicitando a tramitação da matéria em regime de urgência, ainda aguarda apreciação.
É preciso reconhecer que data centers não são apenas ativos tecnológicos. São infraestruturas críticas, intensivas em energia, que definem onde se localiza o processamento de dados, a geração de valor e, em última instância, o poder econômico no século XXI. Países que estruturam políticas claras para atrair esses investimentos ampliam sua soberania digital, fortalecem suas cadeias produtivas e criam empregos qualificados.
O Brasil não pode se dar ao luxo de ficar à margem dessa transformação.
Uma estratégia nacional para data centers deve partir de algumas diretrizes fundamentais. Em primeiro lugar, é necessário alinhar política energética e política digital, garantindo previsibilidade no acesso à energia limpa, competitiva e de longo prazo, um dos principais fatores de decisão para investidores globais. Em segundo lugar, é essencial simplificar o ambiente regulatório, com regras claras para licenciamento, tributação e operação dessas infraestruturas.
Além disso, o país deve valorizar sua própria arquitetura de conectividade. A capilaridade das redes regionais e a presença de milhares de pontos de presença espalhados pelo território criam condições competitivas únicas para o desenvolvimento de uma infraestrutura distribuída de processamento de dados, reduzindo desigualdades regionais e aumentando a resiliência do sistema digital, com menos impacto ambiental e potencialização da capacidade energética limpa presente em regiões como o Nordeste, por exemplo.
É fundamental que esse tema seja inserido no mais alto nível da agenda política. A construção de uma política nacional de data centers com software próprio não pode ser tratada como uma pauta setorial. Trata-se de um projeto de país, que envolve soberania, desenvolvimento econômico, inovação e inserção internacional.
O momento exige visão estratégica e coordenação institucional. O Brasil tem os ativos necessários: energia, mercado, infraestrutura e capacidade técnica. Falta transformar esse potencial em política de Estado.
Trazer a urgência do tema para a pauta política, com ambição e senso de oportunidade, é o primeiro passo. O custo da inação, em um cenário de crescente competição global por infraestrutura digital, será medido não apenas em investimentos perdidos, mas em relevância internacional.
A economia do futuro está sendo desenhada agora. E ela será construída onde estiverem os dados — e os data centers que os processam.
*Aníbal Diniz é jornalista, advogado e consultor da Associação NEO em políticas públicas e regulação das telecomunicações.
**Rodrigo Schuch Wegman é Presidente-Executivo da Associação NEO. Economista formado pela Universidade Candido Mendes, possui MBAs em Gestão Estratégica de Marketing e em Finanças.
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