O Brasil reúne as condições técnicas para acelerar a implantação comercial do 5G Standalone (SA), mas a principal barreira deixou de ser tecnológica e passou a ser comercial segundo avaliação apresentada pela Ericsson durante a divulgação do Ericsson Mobility Report 2026, que projeta forte expansão do 5G na América Latina e identifica o network slicing, a inteligência artificial e as aplicações corporativas como os principais motores da próxima fase de crescimento das redes móveis.

De acordo com Paulo Bernardocki , diretor da Ericsson responsável pela apresentação do estudo, a infraestrutura necessária para a operação do 5G SA já está praticamente disponível nas operadoras brasileiras. O próximo passo é transformar essa capacidade em ofertas comerciais.
“Os ingredientes estão prontos. O que está faltando agora é definir o produto e fazer o lançamento comercial”, afirmou.
A avaliação foi feita em resposta a questionamentos sobre a lenta adoção do 5G Standalone no país, apesar das obrigações estabelecidas no leilão do espectro de 3,5 GHz.
Cobertura deixou de ser o principal obstáculo
Segundo Bernardocki, até recentemente a principal limitação era a cobertura.
O executivo explicou que o Standalone exige operação totalmente independente do 4G, diferentemente do modelo Non-Standalone (NSA), que utiliza parte da infraestrutura das redes LTE.
Nos últimos anos, entretanto, as operadoras passaram a reutilizar frequências anteriormente ocupadas pelo 4G para ampliar a cobertura do 5G, tornando possível oferecer uma rede inteiramente baseada na nova tecnologia.
“A implementação do 3,5 GHz mais as frequências que vieram do 4G agora entrega a cobertura necessária. A operadora passa a poder fazer uma oferta exclusivamente em 5G, que é o que o Standalone exige”, explicou.
Na avaliação do executivo, o mercado entra agora em uma nova etapa, na qual a diferenciação competitiva dependerá da capacidade de lançar novos serviços.
“A operadora que se adiantar e começar a trazer esses serviços mais rapidamente leva uma vantagem comercial.”
Slicing ainda não virou produto
Durante a coletiva de imprensa, jornalistas questionaram por que recursos como network slicing permanecem restritos a demonstrações e projetos-piloto, apesar da demanda de clientes corporativos.
Bernardocki respondeu que os testes realizados durante eventos como Carnaval, jogos de futebol e grandes shows demonstraram a viabilidade técnica da tecnologia.
“O que falta não é rede. O que falta é definir um produto e colocar o pacote comercial”, afirmou.
O executivo citou como exemplo uma implementação realizada pela SoftBank durante uma etapa da Fórmula 1 em Suzuka, no Japão, onde cinco slices distintos atenderam simultaneamente mais de 300 mil pessoas, priorizando aplicações como realidade aumentada, maquininhas de pagamento, conectividade premium e transmissão de vídeo.
Segundo ele, aplicações semelhantes podem ser reproduzidas no Brasil em eventos como corridas de Fórmula 1, Carnaval, grandes shows e partidas de futebol.
IA aumenta pressão sobre as redes
Outro destaque do relatório é o impacto esperado da inteligência artificial sobre a infraestrutura móvel.
Historicamente, as redes foram projetadas para privilegiar o download de conteúdo. Com a disseminação de aplicações de IA generativa, realidade aumentada e óculos inteligentes, cresce a necessidade de transmissão contínua de dados dos dispositivos para a rede.
Segundo a Ericsson, essa mudança tende a pressionar principalmente o uplink, exigindo adaptações no planejamento das redes móveis.
O relatório apresenta cenários em que o tráfego de uplink poderá crescer entre duas e cinco vezes até 2031, dependendo da velocidade de adoção das aplicações de IA.
América Latina deve chegar a 550 milhões de acessos 5G
O Ericsson Mobility Report projeta que a América Latina encerrará 2031 com aproximadamente 550 milhões de assinaturas 5G.
Segundo a empresa, isso representa multiplicar por cinco a base atual, impulsionada pela migração das tecnologias legadas e pela expansão das redes móveis de quinta geração.
O estudo também aponta que:
- o tráfego móvel latino-americano deverá crescer de 8 para 21 exabytes por mês até 2031;
- o consumo médio mensal por smartphone passará de 15 GB para 32 GB;
- a região continuará atrás dos mercados mais maduros, indicando espaço adicional para expansão do consumo de dados.
- IoT e IA impulsionam nova fase
Além do crescimento do consumo de vídeo, a Ericsson aponta a Internet das Coisas (IoT) como outro vetor relevante de expansão.
Segundo dados citados durante a apresentação, baseados na Anatel, os acessos IoT cresceram cerca de 15% no Brasil entre abril de 2025 e abril de 2026, enquanto as linhas tradicionais de smartphones avançaram apenas 1%.
Para Bernardocki, a combinação entre inteligência artificial, computação em nuvem e conectividade móvel deverá impulsionar principalmente o mercado corporativo.
Pesquisa apresentada pela Ericsson mostra que 88% das grandes empresas esperam depender de dados em tempo real para suas aplicações de IA, embora apenas uma pequena parcela já utilize essas tecnologias em larga escala.
Na avaliação do executivo, esse cenário abre uma oportunidade para as operadoras ampliarem sua atuação além da conectividade tradicional, oferecendo soluções integradas que combinem redes móveis, cloud e inteligência artificial.
Ao comentar a dificuldade histórica das operadoras em monetizar novas tecnologias, Bernardocki afirmou que o setor atravessa uma mudança de modelo de negócios.
“Agora nós precisamos começar a colocar o desfile na rua e testar. O ciclo de geração de produtos está cada vez mais curto e as operadoras terão de aumentar sua agilidade para experimentar novos serviços”, concluiu.
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