Educação e padronização da banda larga na América Latina

Francisco Araujo de Carvalho

Por Dr. Francisco Araujo de Carvalho* – Nos últimos anos, o mercado de banda larga da América Latina (LATAM) evoluiu rapidamente, expandindo substancialmente a conectividade como resultado de iniciativas e programas nacionais, além de investimentos sustentados tanto em fibra óptica quanto em acesso fixo sem fio.

A fibra óptica é hoje a tecnologia de acesso mais dominante na região, com a penetração da banda larga fixa residencial na América Latina atualmente acima de 50% e em constante crescimento. A conectividade de alta velocidade não é mais um diferencial de valor agregado; é o mínimo que os clientes esperam.

Com as altas velocidades da fibra agora amplamente disponíveis, simplesmente oferecer velocidades de internet mais rápidas por menos dinheiro não é mais suficiente para conquistar novos clientes ou impulsionar o crescimento da receita. Assim como em outros mercados globais, os provedores de serviços de banda larga (BSPs) da América Latina devem agora competir em algo mais significativo e se concentrar em melhorar a experiência geral do usuário de banda larga.

Isso significa introduzir novos aplicativos de valor agregado e serviços premium que funcionem em conjunto com as ofertas de banda larga existentes, pelos quais os clientes estarão dispostos a pagar mais. O resultado serão novas fontes de receita recorrente e redução da rotatividade de clientes, pois, quando suas experiências melhoram, os usuários têm poucos motivos para procurar outras opções. É por isso que o foco dos BSPs está se voltando para algo chamado Qualidade de Experiência (QoE).

Medindo a qualidade

A Qualidade da Experiência (QoE) concentra-se na confiabilidade, consistência e latência da rede, em vez de apenas nas velocidades brutas de download e upload, e é medida por meio de uma combinação de monitoramento ativo e passivo do tráfego de rede, automação e análise de métricas como latência, jitter e desempenho das aplicações. Abordagens como estas estão estabelecendo as bases para dar início à próxima fase dos serviços de banda larga, como a IA.

Padronização é a chave para o sucesso das abordagens de QoE

Fazer a transição da velocidade para a QoE não é fácil. Mas os padrões abertos podem oferecer aos provedores de serviços a base comum de que precisam para inovar com confiança, integrar-se de forma eficiente e proporcionar as experiências domésticas consistentes que os usuários esperam. Organizações globais de desenvolvimento de padrões, como o Broadband Forum, já estão lançando iniciativas que oferecem às operadoras as ferramentas necessárias para proporcionar as experiências que os usuários esperam atualmente.

Os padrões também impulsionam a interoperabilidade entre vários fornecedores, o que é particularmente importante em uma região que está passando por uma consolidação em massa, com o Brasil sozinho registrando 1.142 transações de fusões e aquisições até agosto de 2025.

À medida que os provedores de serviços de nível 2 da região — que são operadoras nacionais ou regionais — buscam expandir sua presença nacional por meio de fusões e aquisições, as redes de banda larga baseadas em padrões permitem uma integração transparente e econômica dos ativos recém-adquiridos. A adoção e um entendimento comum desses padrões evitam a dependência de um único fornecedor e facilitam a integração de equipamentos de diferentes fornecedores.

O estado da adoção de padrões: em que ponto se encontra o mercado de banda larga da América Latina?

À medida que as demandas dos clientes evoluem, os padrões que formam a base para a inovação em banda larga também devem evoluir. Nos últimos anos, porém, as operadoras da América Latina ficaram para trás. Por exemplo, quando o padrão que permite aos provedores de serviços gerenciar, monitorar e controlar os dispositivos conectados dos clientes e os serviços de rede (conhecido como TR-369 User Services Platform ou USP) foi anunciado em 2018, a região da América Latina estava apenas começando a implantação de seu antecessor — o TR-069.

Por que isso aconteceu? Em termos simples, a região carecia de conscientização sobre as diferenças entre os dois padrões e os benefícios emergentes da implantação da USP. Ao mesmo tempo, a concorrência de mercado e a pressão comercial levaram os provedores de serviços a se concentrarem em suas necessidades imediatas em vez de na inovação de longo prazo. O risco era ficar para trás e preso a um modelo operacional antigo, limitado a conectividade básica e ofertas baseadas em velocidade. Como resultado, futuras atualizações de rede se tornam mais caras, mais demoradas para implementar e estrategicamente restritivas.

Criação de uma comunidade latino-americana para provedores de serviços de banda larga

O USP é apenas uma das muitas inovações que estão sendo desenvolvidas por organismos de padronização no setor de banda larga, tornando essencial que a região da América Latina se mantenha informada e atualizada sobre os avanços contínuos do setor.

Por meio de uma maior colaboração, a região pode implementar estratégias de banda larga alinhadas às necessidades em evolução dos clientes, ao mesmo tempo em que acompanha as inovações mais recentes. Fortalecer a educação, a compreensão e a adoção de normas em todo o mercado da América Latina será fundamental para garantir a interoperabilidade entre suas diversas tecnologias e regiões geográficas, ao mesmo tempo em que permite a flexibilidade necessária para que a banda larga inteligente prospere.

Para apoiar esse progresso, o Broadband Forum está estabelecendo uma comunidade latino-americana de provedores de serviços para educar, colaborar e ajudar a padronizar as implantações de banda larga em toda a região. Espera-se que essa iniciativa impulsione um envolvimento mais amplo de fornecedores e provedores de aplicativos, promovendo um ecossistema de banda larga mais interoperável e unificado na América Latina. Os interessados em participar podem saber mais sobre o encontro do Fórum na América Latina, que ocorrerá em julho.

*Dr. Francisco Araujo de Carvalho é Membro do Conselho do Broadband Forum

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