No último título do Brasil na Copa do Mundo em 2002, a Internet comercial engatinhava. Vinte e quatro anos depois, uma Copa do Mundo depende de uma infraestrutura digital complexa, composta por redes 5G, sensores IoT, inteligência artificial, computação em nuvem, edge computing, câmeras inteligentes e milhares de dispositivos conectados operando simultaneamente.
Para Daniel Fuchs, VP de Inovação da Arqia, a conectividade deixou de ser apenas um recurso de apoio para se tornar infraestrutura crítica dos grandes eventos esportivos. Além do entretenimento, a operação dos estádios modernos passou a depender de uma enorme quantidade de informações processadas em tempo real. Fuchs é taxativo: os estádios funcionam praticamente como grandes datacenters temporários.
“Atualmente, temos dezenas de câmeras operando simultaneamente, transmissões em altíssima resolução, processamento gráfico em tempo real, sistemas de replay, análise de arbitragem e plataformas digitais distribuindo conteúdo para bilhões de pessoas. Tudo isso exige múltiplos links redundantes de fibra óptica, integração com a nuvem e sistemas capazes de operar sem interrupções”, explica.
O volume de dados gerado também cresce continuamente. Muitas imagens já são capturadas em resolução 8K, mesmo quando a transmissão final utiliza formatos inferiores, permitindo armazenamento para futuras aplicações, análises e novas experiências digitais.
“O torcedor quer receber a informação imediatamente. Se o vizinho comemora um gol antes porque recebeu a transmissão mais rápido, isso já gera uma percepção negativa. Por isso, controlar atrasos de transmissão se tornou tão importante quanto ampliar capacidade de rede”, afirma.
VAR, bola conectada e arbitragem digital
Entre as aplicações mais visíveis dessa transformação tecnológica estão os sistemas de arbitragem. O VAR depende de dezenas de câmeras de alta velocidade distribuídas pelo estádio, capazes de gerar imagens em altíssima resolução e transmitir dados instantaneamente para as centrais de análise. Já as bolas inteligentes utilizadas nas competições mais recentes incorporam sensores capazes de enviar informações centenas de vezes por segundo.
” O chip embarcado consegue identificar o momento exato do toque na bola, sua trajetória, velocidade e até confirmar se ela ultrapassou completamente a linha do gol. Estamos falando da Internet das Coisas aplicada diretamente ao jogo”, explica Fuchs. Esses dados são combinados com algoritmos de inteligência artificial e sistemas avançados de processamento de imagem, aumentando a precisão das decisões tomadas pela arbitragem.
A conectividade não impacta apenas a partida. Ela passou a desempenhar papel central na gestão operacional dos eventos. Sensores conectados monitoram fluxo de pessoas, ocupação dos setores, consumo de energia, temperatura, iluminação e movimentação de multidões. Câmeras inteligentes identificam comportamentos suspeitos, excesso de aglomeração e potenciais riscos à segurança.
“Eu costumo dizer que, se a inteligência artificial é o cérebro, a Internet das Coisas são os braços dos estádios modernos. Os sensores coletam informações continuamente e permitem decisões rápidas, seja para melhorar a experiência do público ou para garantir a segurança de milhares de pessoas simultaneamente”, afirma.
A integração também alcança sistemas de transporte, controle de acesso, reconhecimento facial, pagamentos digitais e mobilidade urbana. Segundo o executivo, o conceito de estádio conectado se aproxima cada vez mais do conceito de cidade inteligente.
“As mesmas tecnologias utilizadas em uma Copa do Mundo já começam a ser aplicadas em aeroportos, rodovias, centros logísticos, hospitais e projetos de smart cities. Os megaeventos acabam funcionando como laboratórios para soluções que depois chegam ao cotidiano das pessoas”, destaca.
Próxima fronteira: IA, 5G avançado e experiências imersivas
O avanço do 5G amplia ainda mais o potencial dos grandes eventos esportivos. Além de suportar milhares de dispositivos conectados simultaneamente em áreas altamente concentradas, a tecnologia reduz a latência e aumenta a capacidade de transmissão de dados em tempo real. Para os próximos anos, a expectativa é que inteligência artificial, edge computing e redes móveis de nova geração permitam experiências cada vez mais imersivas.
“Estamos caminhando para transmissões em realidade aumentada, múltiplos ângulos personalizados, análises automatizadas em tempo real e integração cada vez maior entre o ambiente físico e digital. A Copa do Mundo continuará sendo um evento esportivo, mas também será uma das maiores vitrines globais de tecnologia e conectividade”, conclui Fuchs.

