A Copa dos múltiplos dispositivos

Victor Arnaud, presidente da Equinix

Por Victor Arnaud* – Durante muito tempo, assistir à Copa do Mundo era uma experiência relativamente simples. A televisão reunia famílias, amigos e colegas de trabalho diante da mesma transmissão.

Hoje, continuamos assistindo ao mesmo jogo, mas de formas muito diferentes. Milhões de pessoas ainda acompanham a partida pela televisão. Outras milhões escolhem o streaming, que já alcançou 18,3 milhões de dispositivos simultâneos no Brasil em um único canal do Youtube. E, independentemente da tela escolhida, a transmissão passou a ser apenas uma parte da jornada do torcedor.

Enquanto a bola rola, comentamos os lances no WhatsApp, acompanhamos estatísticas em tempo real, navegamos pelas redes sociais, assistimos aos melhores momentos, conferimos outras partidas e seguimos recebendo notificações de dezenas de aplicativos.

A Copa sempre foi um evento coletivo. O que mudou foi a forma como esse coletivo acontece. Hoje, a experiência se distribui entre múltiplas telas, plataformas e interações que acontecem ao mesmo tempo.

À primeira vista, parece apenas uma mudança de comportamento. Na prática, ela ajuda a explicar uma transformação muito maior: a infraestrutura digital precisou evoluir para sustentar não apenas uma transmissão para milhões de pessoas, mas milhões de interações simultâneas.

Sempre que muda a forma como consumimos informação, muda também a forma como a tecnologia precisa ser construída para sustentá-la.

Foi assim com a internet comercial. Depois com a computação em nuvem. Mais tarde com o streaming. E continua acontecendo agora.

Durante muitos anos, a infraestrutura digital era, sobretudo, uma questão de capacidade. O desafio consistia em processar, armazenar e transportar volumes cada vez maiores de dados. Capacidade continua sendo essencial. Mas, na economia digital, deixou de ser suficiente. A vantagem passou a estar na proximidade.

Quanto menor a distância entre usuários, conteúdos, aplicações e redes, menor a latência e melhor a resposta dos serviços digitais. Em um ambiente em que milhões de pessoas interagem simultaneamente, poucos milissegundos podem determinar se um vídeo reproduz sem interrupções, uma mensagem chega instantaneamente ou uma aplicação responde no tempo esperado.

É essa lógica que explica a evolução da arquitetura da internet. Não basta processar mais. É preciso processar mais perto de onde a demanda acontece.

Durante os jogos da seleção, essa arquitetura é submetida ao seu maior teste de estresse.

Milhões de pessoas acompanham a mesma partida, mas cada uma constrói uma jornada diferente. Alguns assistem pela televisão aberta. Outros pelo streaming. Muitos comentam o jogo nas redes sociais, acompanham estatísticas em tempo real, conversam em aplicativos de mensagens ou alternam entre diferentes plataformas ao longo dos mesmos 90 minutos.

Embora cada interação percorra um caminho diferente, todas dependem do mesmo princípio: aproximar dados, conectividade e processamento do usuário final.

É justamente nesse ponto que o Brasil construiu uma vantagem relevante.

Ao longo das últimas décadas, o país desenvolveu um dos maiores ecossistemas de troca de tráfego do mundo por meio do IX.br. Durante os jogos da seleção, essa infraestrutura movimentou dezenas de terabits por segundo, enquanto alguns dos principais pontos de interconexão registraram picos superiores a 10 Tbps.

Os números impressionam, mas representam algo mais importante do que capacidade instalada. Eles demonstram a força do efeito de rede.

Quando operadoras, provedores de internet, plataformas de streaming, redes de distribuição de conteúdo, provedores de nuvem e empresas compartilham um mesmo ambiente de interconexão, a troca de informações se torna mais eficiente, os caminhos percorridos pelos dados diminuem e a qualidade da experiência melhora para todos.

Durante muito tempo, esses ambientes foram vistos principalmente como mecanismos para reduzir custos de trânsito IP. Esse papel continua importante. Hoje, porém, cumprem uma função muito mais estratégica: conectar, em um mesmo ambiente, os diferentes participantes da economia digital. Quanto maior essa densidade, maior o efeito de rede e mais eficiente se torna a circulação de dados entre empresas, plataformas e usuários.

A Copa torna essa transformação visível porque concentra, em poucas horas, um volume extraordinário de acessos simultâneos.

Mas o comportamento observado durante os jogos não é exceção. É uma versão intensificada do que acontece diariamente com bancos, comércio eletrônico, entretenimento, educação, serviços públicos e praticamente toda atividade econômica que depende de conectividade.

Grandes eventos não criam infraestrutura. Apenas revelam se ela foi construída antes.

Talvez essa seja a principal lição da Copa para quem olha a arquitetura da internet. Os recordes de tráfego registrados durante a competição não são o mais importante. O que realmente importa é perceber que a infraestrutura construída para suportar milhões de interações simultâneas durante um jogo é a mesma que sustentará milhões de transações, conexões e experiências digitais quando a Copa terminar.

* Victor Arnaud, presidente da Equinix no Brasil, escreve mensalmente a Coluna do Arnaud no Tele.Síntese, com sua visão sobre presente e futuro da infraestrutura digital, soluções e IA.

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