A fabricante chinesa ZTE realizou o Broadband User Congress,em São Paulo, e deixou para o mercado nacional um recado claro: mesmo já sendo líder no país, ainda vê espaço para crescimento. E, mais importante, defende uma transformação que abra caminho para a melhor monetização da infraestrutura e dos serviços digitais.
“A América Latina, especialmente o Brasil, é uma região estratégica para a operação global da ZTE”, afirmou o presidente da companhia no país, Lu Maoliang. Ele lembrou que a fabricante completa, neste 2026, 25 anos de atuação local como uma das principais fornecedoras do mercado brasileiro, trabalhando com todas as grandes operadoras e milhares de ISPs. A empresa calcula liderar o mercado de banda larga fixa no país, com mais de 20 milhões de CPEs entregues e presença em mais de 30% dos lares brasileiros.
Embora já seja líder em redes fixas no Brasil, o país representa apenas o 20º maior mercado da ZTE no mundo, o que ajuda a explicar o discurso insistente sobre potencial de crescimento. Para os executivos da empresa, o avanço da inteligência artificial, da computação distribuída e das aplicações sensíveis à latência abre espaço para uma nova corrida de investimentos em infraestrutura digital.
A ampliação das capacidades da banda larga é peça central na estratégia global da companhia. O diagnóstico foi repetido ao longo do ZTE Broadband User Congress, diante de operadoras, provedores regionais, fornecedores e autoridades públicas. Mais do que vender equipamentos, a empresa se posiciona como parceira de uma transformação mais profunda do setor, em um momento em que a expansão da fibra deixa de ser suficiente e a discussão passa a girar em torno de monetização, inteligência artificial e novos modelos de negócio.
“O Brasil está em um ponto crítico de transformação digital da banda larga”, disse o vice presidente sênior da ZTE, Fang Hui. Segundo o executivo, o crescimento acelerado da fibra e da demanda por serviços inteligentes cria desafios ligados a cobertura, eficiência de custos e experiência do usuário, mas também oferece “bom espaço para crescimento”.
Ele destacou que a companhia pretende avançar em três frentes: inovação tecnológica, cooperação com operadoras para reduzir custos e uso de inteligência artificial para ampliar a eficiência operacional. A ZTE destacou que suas soluções de transformação de rede conseguem reduzir custos de construção e operação em mais de 30%.
O pano de fundo do evento foi um mercado brasileiro que já alcançou um nível de maturidade raro no mundo. Segundo dados apresentados pelo analista da GlobalData Joao Paulo Bruder, a fibra óptica já responde por 76,6% dos acessos de banda larga no país e deve continuar crescendo até 2030. Para ele, o Brasil se transformou em referência global no setor. “Fibra já cresceu muito e vai crescer mais ainda”, resumiu.
Mas o consenso entre operadoras, analistas e fornecedores presentes no congresso é que o setor enfrenta agora um novo dilema. A expansão de cobertura deixou de ser o principal vetor. O desafio passou a ser como ganhar dinheiro em um mercado saturado, hipercompetitivo e pressionado por margens cada vez menores.
Foi justamente esse o eixo central da apresentação do diretor sênior do grupo de CTO da ZTE, Hans Neff, que sintetizou a mudança de paradigma em uma frase repetida nos corredores do evento: “Resolvemos o problema da rede. Não resolvemos o problema do negócio”. Segundo ele, as operadoras chegaram a um “platô de experiência” em que oferecer velocidades cada vez maiores já não garante aumento proporcional de receita. “Se você oferece 500 megas, 1 giga ou 5 gigas, a experiência do usuário assistindo TV ou ouvindo música não muda drasticamente”, afirmou.
A saída, na visão da ZTE, passa pela transformação da banda larga em uma plataforma de serviços digitais baseada em experiência, dados e inteligência artificial. O conceito apareceu em diferentes apresentações como uma mudança de mentalidade: sair da lógica de vender apenas capacidade de rede para operar serviços digitais integrados, com foco em qualidade percebida, automação e novos fluxos de receita.
Foi nesse contexto que o vice-presidente da ZTE, Peter Hu, defendeu a transição “de operações focadas em bits para operações focadas em tokens”, expressão usada para simbolizar a migração do modelo tradicional de telecomunicações para uma economia digital baseada em processamento, aplicações e monetização de experiências.
Peter Hu afirmou que o mercado de banda larga vive uma nova etapa de transformação tecnológica, impulsionada pela rápida expansão da fibra óptica, pela evolução do Wi-Fi e pela chegada da inteligência artificial às redes e serviços digitais. O setor, apontou, atravessa três ondas principais: a consolidação do FTTH (fibra até a casa), a expansão do FTTR (fibra até o quarto) e o crescimento das aplicações B2B, cada vez mais relevantes para operadoras e provedores.
Hu destacou ainda que as infraestruturas de telecomunicações passam por mudanças profundas, com data centers voltados para IA, novas arquiteturas ópticas e evolução das redes móveis do 4G ao 5G Advanced. Para o executivo, as redes deixarão de ser apenas plataformas de conectividade e passarão a sustentar serviços inteligentes distribuídos entre cloud, edge computing e dispositivos conectados.
Hu afirmou que o principal desafio do setor agora é monetizar essas redes em um cenário de transformação digital acelerada. Segundo ele, a indústria está migrando da era da “internet broadband” para a “AI broadband”, em que a experiência do usuário, os serviços inteligentes e os chamados “tokens” passam a ter papel central.
O executivo explicou que os tokens representam uma mudança de comportamento dos consumidores, impulsionada pela inteligência artificial, com serviços automatizados e experiências mais personalizadas. Nesse contexto, a ZTE defende que operadoras e ISPs façam a transição de operações focadas em bits e conectividade para operações orientadas a resultados e experiências digitais.
“Precisamos transferir das operações de bits para operações de tokens”, afirmou. Para Hu, a inteligência artificial transformará os terminais, as casas conectadas e os modelos de negócio das telecomunicações, exigindo redes abertas, simplificadas e preparadas para integrar serviços B2C e B2B de ponta a ponta.
O debate encontrou eco entre operadoras e provedores. Para o vice presidente da V.tal, Lucas Aliberti, o setor entrou em uma nova fase. “Hoje a maioria das residências já tem uma fibra passando na porta de casa”, afirmou. Segundo ele, o desafio deixou de ser construir infraestrutura e passou a ser criar valor para além da conectividade, com atendimento, serviços digitais e experiências diferenciadas.
Na avaliação do CTO da Alares, Anderson Jacopetti, o Brasil vive um “paradoxo”. Apesar da altíssima penetração de fibra, o setor ainda apresenta baixa monetização. Enquanto o país aparece entre os líderes mundiais em cobertura de rede, o ticket médio permanece baixo em comparação internacional. “A nossa decisão é se vamos entregar mais valor ou continuar brigando em guerra de preços”, afirmou.
Para o presidente da Associação Neo, Rodrigo Schuch, o país tem diferenciais importantes para se posicionar como agente da transformação digital “Vamos observar nos próximos anos menos lançamentos de rede e muito mais crescimento com cliente, otimizando as redes existentes. Temos hoje cerca de 16 cabos submarinos e mais sete em construção, o que nos coloca absolutamente à frente de qualquer mercado na América do Sul, uma posição diferenciada para a gente ser um player relevante da nova economia digital.”
Monetização e qualidade da expereiência do usuário
A discussão sobre monetização apareceu ligada diretamente à qualidade da experiência do usuário. Baixa latência, estabilidade, automação e inteligência artificial foram tratados como ativos comerciais, e não apenas técnicos. A expectativa é que aplicações de IA, cloud gaming, edge computing e workloads corporativos aumentem drasticamente a exigência sobre as redes.
Segundo o diretor de redes de transporte da TIM, Eisenhower Rios Santos, a experiência do cliente passa a ser o principal diferencial competitivo do setor. “A experiência é perdida na mesma velocidade com que entregamos o tráfego: em milésimos de segundo”, afirmou. Para ele, áreas tradicionalmente invisíveis, como transporte óptico, passam a ter papel central na criação de novos negócios e serviços premium com SLA diferenciado.
Grande parceira da ZTE, a Claro anunciou uma nova geração de fibra de giga velocidades que usa uma tecnologia XGS com Wi-Fi 7, mais simples, mais transparente e traz o primeiro equipamento Wi-Fi 7 no mercado em parceria exclusiva com a fabricante chinesa. As parceiras também anunciaram uma nova geração de set-top box 4K Ultra HD no Brasil.
A MediaTek parceira da ZTE em equipamentos Wi-Fi e banda larga, levou ao evento demonstrações de aplicações de inteligência artificial embarcadas nos roteadores residenciais. Segundo Davi Bregula, recursos de IA já conseguem reduzir latência, otimizar tráfego e até diagnosticar e corrigir falhas automaticamente dentro da casa do usuário. “A caixinha do cliente pode virar um sistema de monetização”, afirmou.
Outra importante parceria, com a Multilaser, reforçou a força dos produtos da ZTE no mercado brasileiro. “Já vendeu mais de 13 milhões de aparelhos por todo o Brasil, com investimentos superiores a R$ 160 milhões na nossa fábrica só para produtos da ZTE. São mais de R$ 3 bilhões de receita com os negócios da ZTE, com atendimento a mais de 7 mil provedores no país”, destacou o vice presidente do grupo, Alex Melo.
O congresso também contou com a presença do ministro das Comunicações, Frederico Siqueira Filho, que afirmou que o Brasil precisa ampliar infraestrutura digital para sustentar a expansão de inteligência artificial, data centers e inclusão digital. Segundo ele, o leilão da faixa de 700 MHz e projetos como o Norte Conectado criam oportunidades para ampliar a cobertura em áreas remotas e fortalecer a competitividade do setor.
Já o deputado Juscelino Filho, presidente da Frente Parlamentar Mista de Telecomunicações e Soluções Digitais, destacou a atuação da Frente Parlamentar das Telecomunicações e Soluções Digitais em pautas como monetização de redes, inteligência artificial, compartilhamento de postes e incentivos a data centers. “Precisamos acompanhar e debater questões da economia digital e da monetização de redes”, afirmou.

