Relatório da Ookla sobre a preparação das redes móveis para cargas de trabalho de inteligência artificial indica que o principal gargalo do Brasil não está na latência da rede 5G, mas na conexão entre as redes das operadoras e a infraestrutura de nuvem onde rodam aplicações de IA.
O estudo Beyond Download Speed: Benchmarking 5G Mobile Networks Against AI Workloads publicado hoje, 7, avaliou 22 mercados e 86 operadoras, com base em dados do Speedtest Intelligence de 2025. A proposta da Ookla é ampliar a forma de medir a qualidade das redes móveis. Segundo o relatório, “as métricas que historicamente serviram para comparar redes móveis, velocidade máxima de download e cobertura, dizem pouco sobre se uma rede consegue carregar essa combinação” de tráfego gerado por IA.
A consultoria afirma que as cargas de IA não são uniformes. “Tráfego de IA não é uma coisa só: chat de texto, voz conversacional, multimodal e visão AR, vídeo gerado e atividade agentic em segundo plano carregam a rede de formas diferentes”, diz o estudo.
Brasil tem boa latência na rede móvel
No indicador de latência “multi-server”, usado para medir a responsividade da rede em condições normais, o Brasil aparece com 37,6 milissegundos. O resultado coloca o país dentro da meta considerada adequada para IA conversacional, inferior a 40 ms, e também dentro do limite para interações por texto com modelos de linguagem e aplicações de agentes de IA.
A Ookla afirma que “as modalidades de IA que dominam o tráfego móvel hoje — interação com LLMs de texto, vídeo gerado por IA e IA agentic — têm prontidão quase universal”. No recorte global, 18 dos 22 mercados avaliados cumprem a meta de latência para interações de texto com IA, enquanto 13 atingem a meta para IA conversacional.
Nenhum mercado, porém, alcança o requisito inferior a 10 ms para aplicações de realidade aumentada e visão multimodal. Para a Ookla, “a modalidade de IA mais exigente permanece além do alcance das redes 5G atuais globalmente”.
Em upload, o Brasil registra mediana de 26,07 Mbps, acima da meta de 20 Mbps usada para aplicações multimodais e de realidade aumentada. Ainda assim, o país aparece entre os mercados com menor participação do upload na capacidade total da rede: 5,7%. O relatório observa que “a lacuna de upload é ampla e, na maioria dos mercados, está se ampliando”.
Nuvem é o ponto crítico
O principal alerta sobre o Brasil aparece na análise de latência até a infraestrutura de nuvem. A Ookla afirma que “o Brasil se destaca de todos os outros mercados no conjunto de dados”, com latência mediana entre 149,7 ms e 163,6 ms nos quatro provedores analisados: AWS, Azure, Google Cloud e Oracle Cloud Infrastructure.
Os números colocam o Brasil na pior posição do levantamento nesse indicador. De acordo com o relatório, a latência média no país foi de 157 ms para AWS, 162 ms para Azure, 164 ms para Google Cloud e 150 ms para Oracle Cloud Infrastructure.
A explicação apresentada pela Ookla é que “a infraestrutura de nuvem no Brasil está concentrada em São Paulo”. O estudo também afirma que “o mercado fragmentado de ISPs, onde a maioria dos provedores não tem peering direto com hyperscalers, faz com que o tráfego passe por vários saltos intermediários antes de alcançar qualquer endpoint de nuvem”.
A conclusão é relevante porque aplicações de IA dependem não apenas da rede de acesso móvel, mas também do caminho até os data centers onde ocorre a inferência. Segundo o relatório, “em mercados onde a latência de nuvem é alta, ela se torna um gargalo independentemente de quão bem a própria rede se comporta”.
Claro é destaque
O relatório também cita a Claro Brasil entre os operadores que combinam bons indicadores de upload e latência. Segundo a Ookla, a operadora registra 32,23 Mbps de upload e 32,9 ms de latência multi-server, atingindo todos os requisitos avaliados abaixo do patamar de aplicações multimodais e de realidade aumentada.
A Ookla afirma que, entre os 86 operadores analisados, 65 cumprem os requisitos de upload e latência para LLMs de texto e IA agentic. Esse número cai para 46 quando considerada a meta de IA conversacional. Nenhum operador cumpre simultaneamente os requisitos para IA multimodal e realidade aumentada.
Peering vira infraestrutura de rede
Nas recomendações, a Ookla aponta quatro prioridades para operadoras que pretendem preparar suas redes para IA: reequilibrar capacidade de upload, reduzir latência e jitter, tratar peering com provedores de nuvem como infraestrutura de rede e preparar a arquitetura para novas modalidades de IA.
O estudo afirma que “para operadoras construindo propostas de rede em torno de serviços dependentes de IA, peering de nuvem não é uma decisão de compras de TI. É uma decisão de desempenho de rede com impacto direto na experiência de IA que as operadoras podem entregar”.
No caso brasileiro, os dados indicam que a rede móvel já atende requisitos de latência para aplicações atuais, mas que a conexão até a nuvem pode limitar experiências em tempo real. Para a Ookla, o desempenho de IA não será determinado apenas pela velocidade do 5G, mas pela integração entre rede móvel, interconexão, nuvem e infraestrutura distribuída.
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