
A inteligência artificial deve abrir uma nova frente de receitas para as operadoras de telecomunicações, que poderão participar da cadeia econômica da IA não apenas transportando dados, mas também fornecendo capacidade computacional distribuída e processamento de inferência próximo aos usuários: essa é a visão de Hugo Baeta, diretor-geral da Nokia no Brasil.
Em conversa com jornalistas nesta terça, 16, o executivo afirmou que a companhia enxerga a inteligência artificial como um novo ciclo tecnológico para o setor de telecomunicações e acredita que as operadoras têm condições de ocupar uma posição estratégica nesse ecossistema.
“As operadoras passaram anos na economia dos bits. A diferenciação era transportar bits de forma mais rápida ou menos rápida, com mais ou menos latência, entre um ponto A e um ponto B. Mas o modelo vai deixar de ser apenas uma economia de bits e vai passar a ser uma economia de tokens”, afirmou.
Segundo Baeta, a expansão da inteligência artificial física — aplicada a ambientes industriais, mineração, logística, veículos autônomos e robótica — exigirá processamento distribuído e respostas em tempo real, criando demanda por computação localizada na borda da rede.
“Quem está mais próximo do usuário? É o grande data center ou é a operadora, que possui edge data centers, POPs e milhares de torres distribuídas? A operadora tem um potencial muito grande de se capacitar para essa inferência na borda e monetizar isso”, disse.
GPUs nas antenas
A estratégia da Nokia passa pela incorporação de capacidade de processamento diretamente na infraestrutura móvel.
Baeta destacou a parceria global da fabricante com a NVIDIA para incorporar GPUs aos equipamentos de rádio, inicialmente como parte da evolução para o 5G Advanced e, posteriormente, para o 6G.
Segundo ele, essas GPUs terão uma dupla função. A primeira é melhorar a eficiência operacional da própria rede. A segunda é disponibilizar capacidade computacional para aplicações de inteligência artificial.
“A GPU que vai estar dentro do rádio pode ser usada para a própria rede e também para clientes que precisam de inferência na borda”, afirmou.
A Nokia acredita que essa infraestrutura permitirá às operadoras oferecer contratos com características específicas de latência, desempenho e tempo de resposta para aplicações corporativas.
“Você vai ter uma rede móvel com um slice dedicado para determinada empresa e esse slice poderá entregar respostas aos seus tokens dentro de um tempo determinado”, explicou.
O impacto da IA sobre as redes
Na avaliação do executivo, a inteligência artificial altera profundamente o perfil de tráfego das redes.
Ele argumenta que aplicações tradicionais, como vídeo e internet móvel, possuem padrões relativamente previsíveis de utilização. Já aplicações de IA geram tráfego em rajadas, com diferentes tipos de consultas e exigências muito mais rígidas de latência.
Para o chefe da Nokia no país, haverá avanço da chamada IA agêntica, em que agentes de software passam a interagir diretamente entre si.
“Os agentes trabalham 24 horas por dia. Não é mais um ser humano falando com agentes. São agentes interagindo entre eles em vários data centers distribuídos”, afirmou.
Para atender esse cenário, a Nokia defende uma evolução gradual das redes atuais para arquiteturas cada vez mais automatizadas e, no futuro, nativamente desenhadas para inteligência artificial.
Brasil ganha protagonismo
O executivo da Nokia também vê o Brasil em posição favorável para atrair investimentos em infraestrutura voltada à IA.
Segundo Baeta, a combinação entre disponibilidade energética, participação elevada de fontes renováveis e forte conectividade internacional coloca o país em vantagem na disputa por novos data centers.
“A matriz energética do Brasil, além de abundante, é majoritariamente limpa. Somado à presença de cabos submarinos e de uma grande malha de fibra óptica, isso torna o país atrativo para implantação de grandes data centers”, afirmou.
Ele acrescentou que o crescimento dos investimentos em IA não beneficia apenas os operadores de data centers, mas toda a cadeia de telecomunicações. Para ele, esse movimento ainda está em estágio inicial, mas deverá impulsionar investimentos em infraestrutura óptica, transporte IP, edge computing e redes móveis ao longo dos próximos anos.
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