Data Centers: Infraestrutura Estratégica e Crítica para o Futuro do País

Hermano Pintor, Futurecom

*Por Hermano do Amaral Pinto Junior – Na última quinta-feira, 30, o Tele.Síntese reuniu o ecossistema de dados, conectividade e energia em um evento fundamental para compreender a complexidade e os desafios que se apresentam diante da enorme oportunidade para o Brasil atrair investimentos em data centers e inteligência artificial.

Nosso país oferece condições únicas em um mundo conturbado pelas instabilidades geopolíticas e pela escassez de recursos energéticos sustentáveis. Temos amplos terrenos praticamente isentos de qualquer atividade sísmica, possuímos recursos hídricos abundantes, oferta energética limpa e renovável, incomparável com qualquer outra região do mundo e ainda possuímos uma rede de conectividade ótica de grande qualidade, capacidade, penetração e baixíssima latência.

Contudo, apesar do enorme potencial para construirmos uma infraestrutura digital extremamente competitiva e segura, temos que entender o seu papel crítico na “logística nacional e global de dados”, no armazenamento, processamento e distribuição de informações digitais, em especial para um novo mundo imerso e cada vez mais dependente da inteligência artificial, como motor de produtividade.

Os data centers não podem mais ser caracterizados como um ativo imobiliário, mas parte central do contexto de infraestrutura crítica e de soberania digital, cuja eventual descontinuidade de serviços, pode impactar a operação de hospitais, a credibilidade do sistema financeiro e até o trânsito em grandes cidades.

Os investimentos demandados são de bilhões de dólares (um DC de 100MW, demanda um investimento de infra de aproximadamente 1 bilhão de dólares e outros quatro ou cinco em equipamentos dos clientes que ocuparão aquele espaço), e o mercado financeiro não absorve riscos maus estruturados e não precificados. E, esta talvez deva ser a nossa grande preocupação com a politização e postergação de decisões regulatórias, que afetem o profissionalismo exigido para a padronização de contratos e estabelecimento de linhas de créditos, ainda que os “tokens verdes”, que podemos aqui oferecer graças a nossa matriz energética, sejam um elemento de grande atratividade global.

O panorama brasileiro de DCs, cloud e IA é amplamente positivo, seja pelos aspectos técnicos acima discorridos, como pela demanda reprimida do nosso mercado e do que virá. Há de lembrar que cerca de 40% do processamento dos dados das nossas empresas ainda ocorre em datacenters fora do país, o que poderia ser rapidamente repatriado.

Além disso, a incorporação de sistema de IA em atividades do dia a dia impõe um fluxo ainda maior no consumo de dados, pois as máquinas (com seus sensores e atuadores) trocam muito mais dados com a “nuvem” do que um ser humano, e os resultados desta inferência precisam ser tratados com baixa latência.

Se soberania digital e as demandas da indústria do futuro já têm sido tratadas como estratégicas no México e no Chile, no Brasil estamos ainda pouco atentos à importância da questão temporal e de previsibilidade regulatória, como parâmetros fundamentais para fazermos valer a janela de oportunidade que se apresenta, como mencionado por grande parte dos presidentes das operações de datacenters (Ascenty, Equinix, Elea, Odata, Scala, Tecto), presentes no evento. Os investimentos em DCs para treinamento de IA podem ser os primeiros a perdermos para os nossos vizinhos, apesar das nossas relevantes vantagens competitivas.

É mister lembrar que “DCs sem conectividade são meros fornos”, o que impõe reforçar que o Brasil é um dos países mais decentralizados e competitivos do mundo em Banda Larga, com mais de 18.000 provedores de conectividade, dezenas de sistemas de cabos submarinos e estudos para investimentos em novas zonas de ancoragem, de modo a aumentar a resiliência da rede. Possuímos mais de 100.000 PoPs de Internet no país, sendo que estudo da Brasscom em conjunto com o Nic.br, indica que pelo menos 4.200 destes, podem evoluir para datacenters de borda de pequeno porte, o que traria ao mercado e ao país uma posição estratégica única para ampliar a oferta para a economia digital, do varejo aos serviços públicos.

Por fim, os data centers além de contribuírem para a “logística de dados”, ocupam espaço estratégico fundamental para os negócios dos clientes empresariais em sua jornada de digitalização, de busca de eficiência e de competitividade global. Seja um produtor agrícola, como uma indústria de transformação, todos serão cada vez mais dependentes dos dados coletados em sua operação, trocados entre os seus pares e consolidados para garantir rastreabilidade, produtividade e segurança.

A estratégia digital do país precisa efetivamente fazer valer as nossas vantagens competitivas para a atração de investimentos em data centers, mas atentar para aspectos regulatórios, complexidades burocráticas, de capacitação de mão de obra e de atenção aos usuários, o que tem sido um diferencial do município de Santana de Parnaíba, enaltecido por todos que lá estiveram.

* Hermano do Amaral Pinto Junior é diretor da Informa Markets, diretor para telecomunicações da Fiesp e diretor de tecnologia da Abeprest

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