
Por Adriano Caldevilla* – O mercado brasileiro de provedores regionais de Internet atravessa uma nova etapa de desenvolvimento. Depois de anos marcados pela expansão acelerada da banda larga residencial e das redes de fibra óptica, o setor chega a 2026 com maior maturidade, competição intensa e crescente pressão por diferenciação.
Segundo o Relatório de Monitoramento da Competição da Anatel referente ao segundo trimestre de 2026, o Brasil registrou 55,4 milhões de acessos de banda larga fixa. Desse total, 44,7 milhões utilizavam fibra óptica, o equivalente a mais de 80% da base.
Esse avanço demonstra a dimensão alcançada pela infraestrutura fixa brasileira. Também indica que o próximo ciclo de crescimento dos provedores dependerá cada vez menos apenas da ativação de novos acessos e mais da capacidade de transformar a rede existente em uma plataforma de serviços digitais.
Para competir no mercado corporativo, os provedores regionais precisam ir além da venda de conectividade. Trânsito IP de alta capacidade, interconexão, computação em nuvem, armazenamento, proteção contra ataques cibernéticos, observabilidade e serviços gerenciados passam a fazer parte de um portfólio mais completo.
Da venda de acesso à diversificação do portfólio
A mudança já aparece nos levantamentos mais recentes sobre o setor.
A TIC Provedores 2024, publicada pelo Cetic.br em dezembro de 2025, estimou a existência de 11.853 empresas provedoras de acesso à Internet em atividade no país, número relativamente estável em comparação com as 11.630 estimadas em 2022. O levantamento foi realizado entre setembro de 2024 e abril de 2025, com a participação de 1.719 empresas.
A estabilidade no número de provedores veio acompanhada de uma maior diversificação dos serviços. A proporção de empresas que ofereciam telefonia sobre IP passou de 23% para 35% entre 2022 e 2024. No mesmo período, a oferta de IPTV avançou de 20% para 32%, enquanto os serviços de segurança digital passaram de 24% para 32%.
Esses dados reforçam uma transformação importante: a conectividade continua sendo a base do negócio, mas, isoladamente, já não é suficiente para sustentar a diferenciação no longo prazo.
O cliente corporativo não busca apenas velocidade. Ele precisa de disponibilidade, suporte especializado, segurança, redundância, integração com ambientes de nuvem e capacidade para expandir suas operações sem reconstruir toda a sua arquitetura tecnológica.
Ao combinar conectividade com serviços de maior valor agregado, o provedor pode ampliar sua relevância na operação do cliente, elevar o ticket médio e construir relacionamentos comerciais mais duradouros.
Segurança como parte da infraestrutura
A ampliação do portfólio precisa ser acompanhada por uma visão responsável de cibersegurança.
Nenhuma rede ou plataforma conectada pode ser considerada totalmente protegida. A segurança deve ser construída em camadas, combinando prevenção, monitoramento, detecção, mitigação e capacidade de recuperação.
A TIC Provedores identificou um aumento na proporção de empresas que declararam ter recebido ataques de negação de serviço, ou DDoS. O percentual passou de 23% em 2022 para 30% em 2024. No Nordeste, as declarações de ataques sofridos avançaram de 14% para 25% no mesmo período.
Esse cenário aumenta a importância de soluções integradas de proteção. O ISP regional pode assumir um papel estratégico ao oferecer conectividade corporativa associada à mitigação de DDoS, monitoramento, backup, gestão de incidentes e suporte especializado.
O objetivo não deve ser prometer a eliminação completa dos riscos, mas reduzir a exposição, identificar comportamentos anormais com rapidez e ampliar a capacidade de resposta diante de um incidente.
Infraestrutura mais próxima do mercado
A expansão de serviços digitais também depende de redes com capacidade, redundância e caminhos eficientes.
A proximidade entre usuários, aplicações, conteúdos e recursos computacionais pode melhorar o desempenho, mas a distância geográfica não é o único fator determinante. A experiência final também depende da capacidade disponível, da engenharia de tráfego, das políticas de roteamento, das interconexões e da arquitetura da própria aplicação.
É nesse contexto que Pontos de Presença, data centers regionais, Pontos de Troca de Tráfego e redes de distribuição de conteúdo ganham importância.
Um Ponto de Presença, ou PoP, cria uma nova possibilidade de entrada, saída e interconexão para redes locais. Quando integrado a uma arquitetura adequadamente dimensionada, ele pode reduzir desvios desnecessários, ampliar as alternativas de rota e diminuir a dependência de transportar todo o tráfego regional para localidades distantes.
O crescimento do IX.br demonstra a relevância desse modelo. Em março de 2026, o conjunto brasileiro de Pontos de Troca de Tráfego alcançou um recorde de 50 Tbit/s de tráfego agregado. Desse total, 32 Tbit/s foram registrados no IX.br de São Paulo.
O número representa uma marca de pico agregado, e não uma média permanente de operação.
Ao permitir que diferentes sistemas autônomos troquem tráfego diretamente, os Pontos de Troca de Tráfego podem encurtar caminhos, reduzir custos operacionais e ampliar a eficiência e a resiliência das redes participantes.
O resultado, entretanto, depende de uma combinação de capacidade, diversidade física, políticas de interconexão e operação eficiente. A simples presença em um ponto de troca de tráfego ou data center não garante, isoladamente, menor latência ou maior disponibilidade.
Belo Horizonte como exemplo de descentralização
Belo Horizonte representa um exemplo recente da expansão da infraestrutura para além dos centros tradicionais. Em 2026, a operação de novos PoPs começou na capital mineira. A infraestrutura ampliou as opções de interconexão para provedores regionais, operadoras, empresas e data centers, além de facilitar o acesso à rede nacional e internacional de trânsito IP da companhia.
A presença de PoPs em instalações diferentes cria novas possibilidades de conexão e engenharia de tráfego. Isso não significa, entretanto, que qualquer aplicação terá automaticamente menor latência ou que todo o tráfego seguirá uma rota direta e invariável.
A Internet funciona por meio da interconexão de milhares de sistemas autônomos, e os caminhos utilizados dependem de decisões técnicas e comerciais. O benefício da expansão regional está em oferecer mais alternativas de interconexão, maior flexibilidade para o crescimento do tráfego e melhores condições para aproximar redes, aplicações e conteúdo dos locais onde são consumidos.
A demanda digital do Centro-Oeste
A descentralização também é particularmente relevante em regiões cuja atividade econômica está se tornando mais intensiva em tecnologia e dados.
A TIC Provedores estimou que 4.278 empresas provedoras, equivalentes a 36% do universo estimado, atendiam clientes do setor agropecuário. No Centro-Oeste, 77% dos provedores pesquisados declararam atender empresas desse segmento.
O avanço do agronegócio tecnológico, da logística, da indústria e dos serviços aumenta a demanda por conectividade, processamento, armazenamento e segurança.
Em Goiás, o Instituto Mauro Borges estimou crescimento econômico de 3,8% em 2025, acima dos 2,3% observados no Brasil. O resultado foi impulsionado principalmente pela agropecuária, que apresentou expansão estimada de 20,4%.
Entre as atividades de serviços que avançaram no período, informação e comunicação registraram crescimento de 3,6%. O próprio relatório esclarece que as taxas estaduais de 2024 e 2025 são estimativas.
Sistemas de telemetria, automação, análise de produção, inteligência artificial, monitoramento remoto e gestão logística dependem cada vez mais de infraestrutura digital disponível e previsível.
Nesse contexto, a conectividade deixa de ser apenas um serviço de apoio e passa a integrar diretamente a cadeia produtiva. Uma interrupção pode afetar pagamentos, sistemas de produção, atendimento ao cliente, controle de estoques e operações logísticas.
Integração com redes internacionais
A expansão das redes regionais também melhora as condições de integração dos provedores brasileiros com hubs nacionais e internacionais de conteúdo e conectividade.
Isso não significa que o tráfego do interior seguirá sempre uma rota direta ou “sem escalas” para outros continentes. O caminho percorrido pelos dados depende das interconexões disponíveis, dos acordos de trânsito, das políticas de roteamento, da engenharia de tráfego e da localização efetiva do serviço acessado.
Uma infraestrutura nacional mais distribuída permite, entretanto, reduzir desvios desnecessários, ampliar a diversidade de rotas e facilitar o acesso a redes internacionais e sistemas de cabos submarinos.
Para o ISP regional, isso pode representar maior capacidade de expansão, mais alternativas de conectividade e menor dependência de uma única rota ou fornecedor.
Também possibilita oferecer ao cliente corporativo uma arquitetura mais próxima daquela utilizada por organizações de maior porte, preservando a agilidade e o conhecimento local que caracterizam os provedores regionais.
O próximo ciclo dos provedores
Os provedores regionais tiveram papel decisivo na expansão da banda larga e da fibra óptica no Brasil. O próximo ciclo será definido pela capacidade de transformar essa presença local em uma plataforma integrada de serviços digitais.
A conectividade continuará sendo indispensável, mas será cada vez mais combinada com nuvem, cibersegurança, interconexão, conteúdo, monitoramento e suporte especializado.
A descentralização de redes, data centers e recursos computacionais cria condições para que empresas de diferentes portes e regiões tenham acesso a uma infraestrutura mais próxima, resiliente e competitiva.
Mais do que levar Internet para além dos grandes centros, o desafio agora é permitir que capacidade computacional, segurança, inovação e serviços digitais também sejam desenvolvidos e consumidos regionalmente.
Essa evolução será fundamental tanto para o futuro dos provedores quanto para a competitividade econômica das diferentes regiões do Brasil.
* Adriano Caldevilla é CTO da TelCables Brasil
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