A padronização de APIs e a integração entre bancos, meios de pagamento, fintechs e sistemas corporativos vão desencadear uma corrida tecnológica no mercado brasileiro nos próximos meses. A avaliação foi feita por especialistas que participaram do painel dedicado aos desafios de integração financeira e tecnológica do novo sistema tributário brasileiro durante o Fórum TIC na Reforma Tributária, realizado nesta quinta-feira (14) em Brasília.
O painel reuniu representantes do governo, do sistema financeiro e do setor de tecnologia para discutir como a infraestrutura digital será fundamental para operacionalizar mecanismos como split payment, apuração assistida e recuperação acelerada de créditos tributários.
Para Kelvin Kredens, analista do Departamento de Negócio em Soluções para a Reforma Tributária do Consumo do Serpro, a própria lógica da reforma depende diretamente da tecnologia. Segundo ele, um dos diferenciais do novo modelo será a chamada “apuração assistida”, que substitui o modelo tradicional de declaração tributária por um sistema automatizado e integrado. “O crédito é financeiro e, com o split payment ou o modelo de arrecadação automática, ele será viabilizado mais rapidamente”, afirmou.
Já Norberto Maraschin, vice-presidente da Positivo Tecnologia, destacou que o foco principal precisa estar no contribuinte e no consumidor final. “O que interessa é qual produto vamos entregar ao longo desses meses”, afirmou. Segundo ele, transparência na conciliação e na apuração fiscal serão fatores decisivos para acelerar a adesão ao novo modelo.
Maraschin comparou o impacto da reforma ao efeito provocado pelo Pix no sistema financeiro brasileiro. “A entrada do Pix rompeu determinados padrões do mercado”, disse. Ele ressaltou que mecanismos como split payment e recolhimento automatizado podem criar vantagens competitivas para instituições e empresas que conseguirem se adaptar primeiro. “Teremos, a partir da divulgação das APIs, uma corrida desenfreada para adaptar o mais rápido possível”, afirmou.
Bancos como parceiros estratégicos
O setor financeiro também vê oportunidades de inovação e ampliação de serviços. Segundo Flávio Coronel, bancos e instituições financeiras discutem o tema há pelo menos dois anos e agora entram na fase prática de implementação. “O mercado financeiro tem se preparado e chegou o momento de colocar a mão na massa”, afirmou.
De acordo com Coronel, gerente de soluções e do projeto de reforma tributária do Banco do Brasil, as instituições financeiras poderão atuar quase como um braço contábil das empresas, oferecendo informações consolidadas, conciliação tributária e apoio operacional aos clientes. “Os bancos poderão atuar como parceiros estratégicos dos clientes, fornecendo informações claras, transparentes e consolidadas”, disse.
Ele explicou que a plataforma de split payment receberá dados das instituições financeiras, que serão validados pela Receita Federal antes do repasse automático aos cofres públicos. No momento do pagamento, as informações já estarão consolidadas.
A expectativa do setor privado é de um forte movimento de desenvolvimento de novas soluções tecnológicas voltadas à reforma tributária. Maraschin revelou que empresas já trabalham em plataformas específicas para esse novo ambiente digital, como o chamado “split hub”, voltado à integração entre sistemas empresariais, Serpro e Comitê Gestor.
Segundo ele, a padronização das APIs e das mensagerias será essencial para reduzir complexidade e permitir interoperabilidade entre sistemas financeiros, ERPs e plataformas governamentais. “Quanto maior a uniformidade, menor será a complexidade do sistema”, afirmou.
Kredens reforçou que o papel do Estado será fornecer a infraestrutura básica necessária para fomentar o ecossistema tecnológico em torno da reforma. “As instituições vão precisar de dados para criar serviços para seus clientes. O papel do Estado é fornecer a infraestrutura para fomentar esse mercado de tecnologia”, declarou.
Outro ponto destacado no painel foi o crescimento exponencial do fluxo de dados entre empresas, bancos e governo. Segundo Kredens, a legislação determina que valores arrecadados indevidamente deverão ser devolvidos em até três dias úteis, exigindo alta capacidade de processamento e integração em tempo real. “Teremos um mundo de dados transitando nos sistemas das empresas, do governo e das instituições financeiras”, afirmou.
Os participantes concordaram que a implementação da reforma tributária deverá acelerar investimentos em automação fiscal, inteligência de dados, integração bancária e novos modelos de serviços digitais, criando um mercado de soluções tecnológicas voltadas à gestão tributária no Brasil.




