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O papel das teles pelo clima

Joanes Ferreira Ribas | Diretora de Sustentabilidade da Vivo

Catástrofes como as enchentes que assolaram o Rio Grande do Sul chamam a atenção para os graves efeitos das mudanças climáticas. No Brasil, só no ano passado, o Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) registrou 1.161 episódios, o maior registro desde 2011, quando as medições tiveram início. A Amazônia experimentou, em 2023, uma das piores secas de sua história e com fortes ondas de calor. No lago Tefé, a temperatura da água chegou a impensáveis 39,1 graus Celsius (ºC), provocando a morte de peixes e botos. O Pantanal sofre com a redução do volume de chuvas, o que favorece as queimadas. Segundo o Serviço Geológico do Brasil, 2024 pode ser o mais seco da história do bioma. De acordo com a MapBiomas, nos últimos 12 meses, foram mais de 9 mil ocorrências de focos de fogo, quase sete vezes mais que os registrados no mesmo período em 2023.

Ocorrências extremas como essas estão cada vez mais frequentes e são um alerta para que instituições públicas e privadas tomem medidas urgentes. Logo após o Acordo de Paris, firmado em 2015, quando 195 países assinaram documento comprometendo-se a agir para limitar em 1,5°C o aumento da temperatura da Terra até o ano de 2100, muitas empresas assumiram compromissos pelo clima e definiram metas para reduzir emissões de gases de efeito estufa, causadores do aquecimento global. Mas o cenário mudou. As medidas tomadas até agora não foram suficientes, e o planeta aquece em ritmo acelerado. O ano de 2023 já foi o mais quente dos últimos 174 anos, com alta de 1,45°C na temperatura média global e 1,73ºC na média da América do Sul, de acordo com a Organização Meteorológica Mundial (WMO).

A realidade é que, em algumas décadas, será cada vez mais desafiador conter esse aquecimento, se não atuarmos para zerar as emissões de gases de efeito estufa antes dos prazos estabelecidos. É preciso ação imediata de empresas, governos e organizações, lembrando que os efeitos de medidas adotadas agora só serão sentidos no futuro.

Grandes empresas precisam tomar a dianteira, usar seu poder de influência sobre suas amplas redes, e mobilizar e engajar fornecedores e clientes nesta jornada urgente pelo clima. Nosso setor de telecomunicações, por exemplo, mesmo não sendo intensivo em emissões – pois apoia a descarbonização por meio de soluções que ajudam outros setores a se descarbonizarem – possui poder para mover sua cadeia de valor e realizar um importante trabalho de engajamento com seus parceiros.

Mobilização de toda a cadeia

Na Vivo, estamos mobilizados para reduzir os impactos do negócio. Desde 2015, quando assumimos nossos primeiros desafios ambientais, já reduzimos em 90% nossas emissões diretas e do consumo de eletricidade, mesmo com grande expansão de redes e número de clientes. Essa redução é resultado, principalmente, do uso de energia 100% renovável, do consumo de biocombustíveis pela frota de mais de cinco mil veículos e do maior controle e eficiência operacional. Mas entendemos que isso não é suficiente. É preciso mobilizar toda a cadeia, e rápido.

Por isso, no Vivo ESG Day, em junho deste ano, anunciamos novos compromissos pelo clima e antecipamos em cinco anos nossa meta net zero (zero emissão líquida), de 2040 para 2035, um desafio inédito entre as grandes empresas do setor em todo o mundo. Não é uma tarefa simples. Para chegar ao net zero em 2035, será preciso atingir 90% de redução de emissões em toda a cadeia de valor (escopos 1, 2 e 3), incluindo as emissões de fornecedores, que hoje, na Vivo, representam 74% do total. Os 10% de emissões remanescentes serão neutralizados por meio de investimento, principalmente, em projetos de restauração de florestas em diferentes biomas nesse mesmo período.

A transformação da cadeia de fornecedores para o net zero é, sem dúvida, nosso grande desafio atual, além de ser uma oportunidade de fazer a diferença pelo planeta. Por isso, assumimos uma importante jornada ao lado de nossos 125 fornecedores carbono-intensivos de diversos segmentos, como fabricantes de eletrônicos, equipamentos e serviços de redes e logística, que respondem por cerca de 85% das emissões de nossa cadeia de suprimentos.

Para atingir esse objetivo, mantemos um programa estruturado de sensibilização, engajamento e consultoria, como auxílio na elaboração de inventários e planos de ação, para que nossos fornecedores carbono-intensivos assumam compromissos e metas ambientais voluntárias. Em apenas dois anos do programa, conseguimos dobrar o percentual de empresas atuando pelo clima, com 60% delas engajadas nesse propósito.

Incorporamos em nosso processo de compra requisitos de sustentabilidade e, desde o início deste ano, enfatizamos em contratos a solicitação para que nossos fornecedores de serviços intensivos em carbono estabeleçam metas de redução de emissões alinhadas à iniciativa Science Based Targets (SBTi). Outra medida, para breve, será reconhecer e premiar os fornecedores que mais se destacarem em iniciativas de descarbonização.

Além da parceria de negócios

Queremos que esse pacto vá além da nossa parceria de negócios e possa contribuir para beneficiar todo o setor, bem como outros segmentos, pois, uma vez engajados, esses fornecedores estarão preparados e alinhados às metas climáticas para todos os seus clientes, formando uma rede positiva pelo clima.

São muitos os desafios. Com a experiência de dois anos do Programa Carbono na Cadeia de Fornecedores, identificamos a importância de sensibilizar pequenas e médias empresas, que nem sequer mediam seu impacto ambiental, para a descarbonização. Muitas vezes, a empresa acredita que sua operação não é responsável pela emissão de CO2, mas nunca fez um inventário para conhecer a realidade de seu negócio. Quando o programa teve início, 69% das empresas participantes não tinham inventário de emissões, percentual, atualmente, reduzido para 39%.

Outra solução relevante do programa é desmistificar o tema, na medida em que os resultados das iniciativas adotadas geram ganhos de eficiência. O mais importante é que a empresa perceba que a estratégia de mudança climática é boa não só para o meio ambiente, mas também para os negócios.

Nosso próximo passo é expandir as ações do programa para todos os 1.200 fornecedores da Vivo e acelerar os parceiros carbono intensivos a revisarem suas ambições climáticas e assumirem metas baseadas na ciência. São iniciativas dentro de um compromisso maior de trazer a sustentabilidade para dentro do nosso negócio.

Esta é uma longa jornada, porém necessária e urgente. Companhias que queiram realmente avançar em práticas ambientais, sociais e de governança (ESG) não podem mais se contentar em apenas fazer o seu papel dentro da empresa. É preciso agir em rede. Tomar a dianteira para mover o ponteiro de toda a sua cadeia de valor no compromisso com a redução do aquecimento global. Afinal, sem sustentabilidade, não tem planeta, e sem ele, não há negócio.


Joanes Ferreira Ribas | Diretora de Sustentabilidade da Vivo

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