Convergência tecnológica: a próxima fronteira da economia digital

Por Fernando D’Ascola*

Durante décadas, a inovação foi associada à chegada de uma nova tecnologia. Primeiro vieram a internet comercial, a mobilidade, a computação em nuvem e, mais recentemente, a inteligência artificial. Cada uma dessas ondas redefiniu modelos de negócios, acelerou ganhos de produtividade e abriu espaço para novos mercados. O momento atual, entretanto, apresenta uma característica diferente: pela primeira vez, a vantagem competitiva não será determinada por uma tecnologia específica, mas pela capacidade de integrar diferentes tecnologias em uma arquitetura única, capaz de sustentar uma economia cada vez mais orientada por dados, conectividade e inteligência.

A inteligência artificial continuará ocupando o centro das discussões corporativas. Seu potencial para transformar processos, acelerar decisões e ampliar a produtividade já pode ser observado em praticamente todos os setores da economia. Limitar o debate à evolução dos modelos de IA, porém, significa olhar apenas para a parte mais visível de uma transformação muito mais ampla. O verdadeiro salto acontece na infraestrutura que permitirá que essas aplicações operem em escala, com segurança, disponibilidade e capacidade de adaptação às mudanças que ainda estão por vir.

Essa convergência tecnológica representa uma ruptura importante em relação ao modelo que predominou nós últimos anos. Redes de telecomunicações, computação em nuvem, data centers, cibersegurança, edge computing, conectividade via satélite e inteligência artificial deixaram de evoluir como iniciativas independentes para formar um ecossistema integrado, no qual cada avanço amplia o potencial dos demais. O resultado é uma infraestrutura muito mais inteligente, distribuída e preparada para responder às exigências de uma economia em que decisões precisam ser tomadas em tempo real.

Essa mudança também altera a forma como as organizações constroem vantagem competitiva. Durante muito tempo, investir na tecnologia mais moderna era suficiente para criar diferenciação. Hoje, esse intervalo entre inovação e popularização tornou-se cada vez menor. Plataformas são rapidamente disseminadas, novos modelos chegam ao mercado em ritmo acelerado e aplicações antes restritas às grandes empresas tornam-se acessíveis em poucos meses. O diferencial passa a estar menos na tecnologia escolhida e mais na capacidade de integrá-la a uma infraestrutura flexível, resiliente e preparada para evoluir continuamente.

Nesse novo cenário, a infraestrutura digital reassume um papel estratégico. A expansão da inteligência artificial elevou exponencialmente a demanda por capacidade computacional. A digitalização das cadeias produtivas multiplicou o volume de dados gerados diariamente. Equipamentos conectados passaram a exigir respostas instantâneas, enquanto aplicações distribuídas demandam baixa latência, disponibilidade permanente e elevados padrões de segurança. Nenhum desses desafios pode ser enfrentado isoladamente. Todos dependem de uma arquitetura capaz de conectar redes, processamento, armazenamento, dados e aplicações de forma integrada.

O redirecionamento dos investimentos globais confirma essa mudança de prioridade. A IDC projeta que os aportes em soluções de edge computing deverão superar US$ 380 bilhões até 2028, impulsionados principalmente pela necessidade de aproximar o processamento dos locais onde os dados são produzidos. Na mesma direção, o Gartner aponta arquiteturas computacionais avançadas, inteligência artificial e tecnologias voltadas à resiliência entre as principais prioridades estratégicas das organizações para os próximos anos. Esses indicadores mostram que o mercado já compreendeu que a próxima etapa da transformação digital será sustentada pela evolução da infraestrutura.

Os efeitos dessa convergência já podem ser observados em diversos setores. Na indústria, sensores, inteligência artificial e computação distribuída tornam as operações mais eficientes e reduzem desperdícios. No agronegócio, conectividade de alta capacidade e processamento em campo ampliam produtividade mesmo em regiões remotas. Hospitais aceleram diagnósticos com análise de imagens em tempo real, enquanto empresas de energia monitoram ativos críticos continuamente e cadeias logísticas reorganizam operações quase instantaneamente diante de mudanças climáticas, oscilações de demanda ou interrupções no transporte.

Embora pertençam a setores distintos, todos esses exemplos apontam para a mesma transformação: a inteligência deixa de estar restrita às aplicações e passa a ser incorporada à própria infraestrutura digital.

Essa transformação também amplia o peso estratégico da soberania digital. O debate evoluiu rapidamente e já não se restringe ao local onde os dados permanecem armazenados. Hoje, envolve capacidade nacional de processamento, proteção de infraestruturas críticas, segurança cibernética, disponibilidade energética, formação de talentos e desenvolvimento tecnológico. Em um ambiente marcado por disputas geopolíticas e pela crescente importância da economia baseada em dados, esses fatores passam a influenciar decisões empresariais e políticas públicas com intensidade semelhante à de variáveis econômicas tradicionais.

Poucos países reúnem uma combinação tão favorável quanto o Brasil para participar desse novo ciclo de investimentos em infraestrutura digital. A expansão da infraestrutura de telecomunicações, a presença de uma matriz energética majoritariamente renovável, o amadurecimento do mercado de data centers e a capacidade de inovação construída ao longo das últimas décadas colocam o país em posição privilegiada para atrair investimentos e ampliar sua relevância na economia digital latino-americana. Transformar esse potencial em liderança dependerá da capacidade de conectar infraestrutura, inovação, ambiente regulatório e desenvolvimento de talentos em torno de uma estratégia consistente de longo prazo.

A inteligência artificial continuará ampliando seu impacto sobre empresas e mercados e inaugurando uma nova geração de aplicações e modelos de negócio. O fator decisivo para sustentar essa evolução, porém, estará na capacidade de integrar conectividade, processamento, dados e segurança em uma infraestrutura preparada para acompanhar a velocidade da inovação. É nessa convergência que começa a ser construída a próxima geração de vantagem competitiva das empresas e dos países.

(*) Fernando D’Ascola é Head de Infra & Tech Business da Informa Markets, responsável pelo Futurecom.

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