Avatares criados por IA disseminam desinformação política, indica Data Privacy

Avatares gerados por inteligência artificial (IA) já estão sendo utilizados para participar do debate político brasileiro. Levantamento do Observatório IA nas Eleições, iniciativa da Data Privacy Brasil e do Aláfia Lab, identificou 18 casos de personagens sintéticos usados para comentar temas políticos entre janeiro de 2025 e abril de 2026. Em 78% das ocorrências, os conteúdos continham desinformação sobre políticos ou instituições democráticas.

Os perfis, criados com ferramentas de IA generativa, simulam influenciadores digitais, apresentadores, comentaristas políticos e cidadãos comuns. Segundo o estudo, eles publicam conteúdos que aparentam ser manifestações espontâneas de opinião, sem indicar que foram produzidos artificialmente.

A maior parte dos casos foi registrada no TikTok e no Instagram, com seis ocorrências em cada plataforma. O YouTube concentrou três casos, enquanto X, Kwai e Facebook registraram um caso cada.

Um dos principais achados do levantamento é a falta de transparência sobre o uso de inteligência artificial. Em 11 dos 18 casos analisados (61%), não havia qualquer identificação de que os conteúdos haviam sido produzidos por IA. Nos demais, a sinalização ocorreu por meio de etiquetas das plataformas, marcas d’água das ferramentas utilizadas ou hashtags inseridas nas publicações.

Dos 18 casos identificados, 14 continham alegações enganosas relacionadas a figuras públicas ou instituições democráticas. Os outros quatro foram classificados pelos pesquisadores como conteúdos de sátira ou humor. Ainda segundo o estudo, 13 dos avatares analisados foram utilizados para criticar políticos, governos, instituições ou políticas públicas, enquanto cinco foram empregados para promover candidaturas, lideranças ou causas políticas.

Personagens artificiais

O levantamento destaca que a principal novidade observada não está na manipulação da imagem ou da voz de pessoas reais, mas na criação integral de personagens artificiais que disputam credibilidade e influência nas redes sociais.

Entre os exemplos citados está “Dona Maria”, avatar criado por inteligência artificial que passou a publicar vídeos de conteúdo político nas redes sociais. Segundo o Observatório, a personagem simulava participar de manifestações públicas e apresentava opiniões políticas como se fosse uma influenciadora real. Desde seu surgimento, em agosto de 2025, o perfil publicou centenas de vídeos em diferentes plataformas.

Os pesquisadores também identificaram outros formatos de uso político da IA generativa, como apresentadores fictícios de telejornais, youtubers artificiais, perfis de modelos sintéticas utilizados para associar imagens de políticos à venda de conteúdo adulto e falsos depoimentos de eleitores favoráveis ou contrários a candidatos.

Entre os alvos dos conteúdos analisados estão o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o ex-presidente Jair Bolsonaro, ministros do Supremo Tribunal Federal e políticas públicas federais.

Impacto eleitoral

O Observatório IA nas Eleições foi criado para monitorar o uso de inteligência artificial generativa na produção, amplificação e manipulação de conteúdos políticos que possam impactar a democracia e a integridade da informação durante o processo eleitoral.

Para os responsáveis pela iniciativa, a proliferação desses personagens sintéticos representa um novo desafio para a governança das plataformas digitais e para os mecanismos de transparência no uso de inteligência artificial em conteúdos políticos, especialmente às vésperas das eleições gerais de 2026.

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