
Por Rudinei Gerhart* – Durante décadas, o número de telefone foi apenas um identificador. Associávamos aquele conjunto de dígitos a uma pessoa, empresa ou serviço e o utilizávamos para estabelecer uma ligação ou enviar uma mensagem. Era um recurso típico de telecomunicações, concebido para identificar um terminal na rede e permitir a comunicação entre dois pontos.
Essa realidade mudou. Hoje, o número de telefone deixou de ser apenas um identificador de comunicação e passou a desempenhar um papel central na identidade digital de milhões de pessoas. Abrimos contas em bancos, recuperamos senhas, validamos acessos a redes sociais, autenticamos compras e confirmamos operações financeiras utilizando um código enviado para um número telefônico.
Essa transformação ocorreu de forma gradual e praticamente sem debate. O que nasceu como um recurso de telecomunicações passou a sustentar parte significativa da confiança da economia digital.
Ao mesmo tempo, esse modelo trouxe enorme conveniência para as plataformas digitais. Empresas como Google, Meta, bancos, fintechs e centenas de outros serviços passaram a utilizar um identificador já presente na vida da maioria dos usuários. A adoção do número telefônico reduziu custos de cadastro, simplificou processos de autenticação e melhorou a experiência dos usuários. Na prática, a identidade telefônica tornou-se uma infraestrutura compartilhada de autenticação para todo o ecossistema digital.
O problema é que essa nova função atribuiu ao número telefônico uma responsabilidade para a qual ele nunca foi concebido.
Quanto maior passou a ser o valor do número de telefone como elemento de autenticação, maior também se tornou o incentivo econômico para explorá-lo. Surgiu um mercado paralelo que utiliza esse mesmo ativo para finalidades completamente diferentes daquelas para as quais foi criado. SIM Farms administram milhares de linhas simultaneamente. Estruturas automatizadas criam contas em larga escala para alimentar comunidades artificiais de engajamento. Serviços especializados recebem códigos OTP para burlar mecanismos de autenticação. Plataformas de disparo em massa utilizam a infraestrutura telefônica para publicidade abusiva, spam, phishing, smishing e outras modalidades de fraude.
Em outras palavras, o mesmo número utilizado para comprovar a identidade de um usuário passou a ser explorado para construir falsas identidades em escala industrial.
Os dados mostram que essa evolução não é um fenômeno isolado. O Identity Fraud Report 2026, da Sumsub, apontou crescimento de 126% nas tentativas de fraude com deepfakes no Brasil em relação ao ano anterior. A Veriff identificou que 80% dos brasileiros já tiveram contato com conteúdos produzidos por inteligência artificial, enquanto apenas 29% conseguiram identificar corretamente materiais manipulados durante seus testes.
Paralelamente, a Anatel intensificou sua atuação em iniciativas como autenticação de chamadas e medidas de combate ao spoofing, reconhecendo que a confiança nas comunicações tornou-se um tema estratégico.
Essas iniciativas são importantes, mas enfrentam apenas parte do problema.
Spoofing, SIM Swap, smishing, clonagem de contas de aplicativos de mensagens e fraudes apoiadas por inteligência artificial possuem características diferentes, porém compartilham um elemento em comum: todas exploram a confiança depositada na identidade telefônica.
Por isso, talvez seja o momento de ampliar o debate.
A questão não é apenas como combater novas modalidades de fraude, mas reconhecer que o número telefônico passou a desempenhar um papel muito diferente daquele para o qual foi originalmente planejado. A infraestrutura de numeração deixou de atender exclusivamente às necessidades das telecomunicações e passou a sustentar mecanismos de autenticação utilizados por praticamente toda a economia digital.
Essa mudança levanta uma reflexão importante para operadores, reguladores, plataformas digitais e provedores de identidade. Se o número de telefone tornou-se um dos principais pilares da identidade digital, será que seus mecanismos de governança, autenticação, rastreabilidade e proteção evoluíram na mesma velocidade?
Responder a essa pergunta talvez seja mais importante do que acompanhar apenas a próxima geração de golpes digitais.
* Rudinei Gerhart é executivo, empreendedor e palestrante, com trajetória dedicada aos setores de telecomunicações, tecnologia e inovação.
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