Na era da inteligência artificial, o diferencial competitivo volta a ser humano

Por Vanessa Cerdeira*

A capacidade de interpretar informação e pensar criticamente pode ser o ativo mais escasso do mercado e começa a se formar muito antes do primeiro emprego.

Todos sabemos que a inteligência artificial já é uma realidade nas empresas. Automatiza processos, organiza informações e acelera decisões. Mas, ao mesmo tempo em que amplia capacidades, expõe um ponto sensível que começa a preocupar lideranças: a qualidade do pensamento humano por trás dessas decisões.

Em um ambiente em que as respostas são cada vez mais rápidas e acessíveis, o diferencial competitivo não está apenas em acessar dados, mas em saber interpretá-los. A tecnologia responde, mas não questiona. Organiza, mas não necessariamente compreende. Sem repertório, contexto e capacidade de análise, o risco é escalar a produtividade sem avançar na qualidade das decisões.

Esse é um desafio que não nasce no ambiente corporativo. Começa muito antes. As novas gerações crescem expostas a um volume inédito de informação. Conteúdos rápidos, fragmentados e, muitas vezes, descontextualizados. Muito estímulo, pouca mediação. Nesse cenário, surge uma questão central: estamos formando leitores ou apenas consumidores de conteúdo?

A diferença entre esses dois perfis é relevante e mensurável. Pesquisas indicam que estudantes que acompanham noticiários tendem a apresentar melhor desempenho acadêmico, enquanto o hábito de leitura está diretamente associado à capacidade de interpretar informações, organizar ideias e construir argumentos consistentes. Em um contexto de excesso informacional, essa habilidade passa a ser ainda mais crítica: não se trata apenas de acessar conteúdo, mas de saber identificar o que é relevante, confiável e verdadeiro.

Ao longo do tempo, algumas práticas fundamentais para essa formação foram sendo deixadas de lado. Entre elas, o contato frequente com conteúdos informativos estruturados, como o jornal. Historicamente, ele ocupou um papel importante na formação de leitores ao ampliar repertório, apresentar diferentes pontos de vista e estimular o senso crítico. Hoje, paradoxalmente, nunca tivemos tanto acesso à informação e, ao mesmo tempo, menos profundidade na forma como ela é consumida.

Revisitar esse tipo de prática não é um movimento nostálgico, mas estratégico. Se o mercado demanda profissionais capazes de interpretar cenários, tomar decisões com base em contexto e lidar com complexidade, faz sentido olhar para como essas competências começam a se formar. E esse processo não é responsabilidade exclusiva da escola. Empresas, famílias e a sociedade têm papel direto na forma como as novas gerações aprendem a se relacionar com a informação.

Incentivar o contato com fontes confiáveis, estimular a leitura de atualidades e desenvolver o hábito de compreender o que acontece no mundo são movimentos simples, mas estruturantes. É nesse processo que se constrói a capacidade de diferenciar fato de opinião, informação de ruído, conteúdo relevante de distração.

À medida que a inteligência artificial se populariza, uma percepção começa a ganhar força no mercado: o uso eficiente da tecnologia depende menos da ferramenta em si e mais da qualidade das perguntas feitas a ela. Em outras palavras, pensar bem será cada vez mais valioso.

Talvez o desafio não esteja apenas em preparar as pessoas para usar inteligência artificial, mas em garantir que tenham repertório, senso crítico e autonomia para não serem conduzidas por ela. E essa construção começa muito antes do primeiro emprego.

*Vanessa Cerdeira é especialista em marketing educacional e diretora de marketing e relacionamento na Editora Magia de Ler, pioneira em jornalismo infantojuvenil no Brasil e responsável pelas publicações dos jornais Joca, Joquinha e Tino Econômico.

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