Mainframe se reinventa e reina na missão crítica

O mito de que o mainframe estaria com os dias contados nunca se provou tão distante da realidade quanto no cenário atual. Ele permanece no centro nevrálgico das grandes corporações, responsável por processar 70% das cargas de trabalho globais, com uma presença quase absoluta no setor financeiro. Essa relevância persistente não se deve apenas à complexidade de uma eventual migração, mas também à capacidade constante de reinvenção da plataforma, que hoje se apresenta como um pilar de modernidade fundamentado em um ecossistema robusto de soluções.

O panorama, explicado por Catherine Furasté Fagundes, diretora da IBM Brasil zStack, retrata como, após mais de 60 anos, o mainframe assume novos papéis. “Anunciamos o z16 com a chegada do processador IBM Telum, pegando o hype da inteligência artificial, trazendo inferências de IA para dentro da plataforma. Na z17, anunciamos a segunda versão do Telum, que é capaz de fazer bilhões de inferências de IA. Também trouxemos placas de aceleração de processamento para LLMs [large language models] mais enxutas”, disse, em entrevista ao Convergência Digital.


“Não existe, hoje, nenhuma outra tecnologia que consiga processar um volume tão grande de informações com resiliência e segurança tão altas. Então, o mainframe vai continuar sendo o centro de processamento das grandes corporações”

Catherine Furasté Fagundes, diretora da IBM Brasil zStack 


O foco atual está na convergência entre o hardware de alto desempenho e a inteligência artificial aplicada diretamente no núcleo das transações. Enquanto a geração z16 introduziu o chip Telum, possibilitando inferências de IA em tempo real para o combate a fraudes, a nova z17 avança com a segunda versão deste processador, capaz de realizar milhões de inferências e trazendo placas otimizadas para o processamento de modelos de linguagem menores, os chamados SLMs [small language models).

A estratégia da IBM para manter a plataforma ativa e no estado da arte nos últimos anos tem se concentrado em três camadas fundamentais. A primeira delas é a integração, garantindo que o mainframe opere de forma fluida em ambientes de nuvem híbrida e multicloud, uma exigência mandatória, já que quase todos os grandes clientes lidam com diferentes ecossistemas. A segunda camada foca na exposição segura de dados críticos, permitindo que informações sensíveis sejam consumidas por outras aplicações sem comprometer a proteção. Por fim, a terceira camada aborda a modernização de aplicações, auxiliando empresas a transformarem códigos legados em linguagens contemporâneas como Python e Java, integrando-as a esteiras de desenvolvimento modernas.

A natureza de missão crítica é o que define a permanência do mainframe em setores como o governo – em sistemas que não podem falhar, como o processamento do Imposto de Renda pela Receita Federal –, companhias aéreas e o mercado financeiro. A plataforma oferece uma escalabilidade comparável à da nuvem pública, permitindo aumentar a capacidade de processamento em períodos de alta demanda, mas com níveis superiores de segurança e soberania de dados.

A proteção contra ameaças futuras também já é uma realidade: desde a z16, a IBM incorporou algoritmos quantum-safe, preparados para resistir ao eventual avanço da computação quântica, que poderia quebrar criptografias tradicionais. A modernização do código é, talvez, o maior desafio e a grande oportunidade para os próximos anos. Uma pesquisa recente do IBM Institute for Business Value revelou que 67% dos executivos consideram as aplicações de mainframe estratégicas para suas empresas. Para acelerar esse ciclo, a inteligência artificial assume um papel crítico, funcionando como assistente e agente de automação para entender regras de negócio complexas e atualizar sistemas escritos em Cobol.

Catherine Furasté Fagundes ressalta que o futuro do mainframe não é isolado, mas integrado a ambientes multicloud, impulsionado pela IA para gerar a agilidade que o mercado exige. Com soluções como o LinuxOne, voltado exclusivamente para cargas Linux, a plataforma expande seu alcance para novas indústrias, provando que sua robustez e escalabilidade continuam sendo insubstituíveis para o processamento de grandes volumes de dados no mundo real.

Migração: mais riscos e mais custos

No estudo “The State of the IBM Mainframe in 2026”, o Gartner ressaltou que a estratégia da IBM de continuar investindo na plataforma tem dado frutos: as vendas de 2025 atingiram o recorde de US$ 5,8 bilhões e houve um aumento de 52% nas consultas de clientes do Gartner em comparação com o ano anterior. “A principal ameaça ao crescimento do mainframe da IBM é a falta de amplo acesso à plataforma para estudantes e entusiastas desenvolverem habilidades em engenharia de sistemas, ao contrário das ofertas similares de hiperescaladores de nuvem ou fornecedores de sistemas operacionais”, registra o documento. 

O Gartner apontou que, nos últimos três anos, houve uma mudança crucial na abordagem das organizações em relação a seus mainframes. Os clientes saíram de uma visão de legado do passado, esperando pela tecnologia certa para permitir uma migração completa para a nuvem pública ou, pelo menos, para sistemas distribuídos, para a percepção de que os riscos e o aumento do custo total de propriedade (TCO) a longo prazo superam os benefícios de uma eventual migração.

Segundo a consultoria, em 2025 houve um aumento de 52% nas consultas de clientes relacionadas a mainframes, em comparação a 2024. Os clientes estão cada vez mais focados em integrar tecnologias emergentes em seus ambientes de mainframe e em preparar essa plataforma para a próxima década.

“Não existe, hoje, nenhuma outra tecnologia que consiga processar um volume tão grande de informações com resiliência e segurança tão altas. Então, o mainframe vai continuar sendo o centro de processamento das grandes corporações. Vejo que o futuro da plataforma é de muito mais integração e aponta para códigos e sistemas cada vez mais modernizados e atualizados”, enfatizou Catherine Furasté Fagundes. 

Os desafios residem na capacidade de lidar com sistemas muito antigos. Contudo, a executiva disse acreditar que mesmo essa dificuldade tende a diminuir significativamente nos próximos anos devido ao advento da inteligência artificial. “Assistentes e agentes vão fazer automações dentro do ambiente mainframe, o que diminuirá exponencialmente a necessidade de conhecimento profundo da plataforma”, explicou. 

Além disso, enquanto plataformas como computação em nuvem e distribuída normalmente exigem atualizações e testes dispendiosos a cada cinco a oito anos para manter o suporte do fornecedor, os mainframes podem executar com confiabilidade códigos escritos há mais de 50 anos.

O Gartner ponderou, no estudo, que o mainframe ainda é uma das melhores plataformas para aplicações que mapeiam processos de negócios estáveis, que têm uma longa expectativa de vida útil e exigem alta segurança e integridade transacional. Já a nuvem e os ambientes distribuídos são mais adequados para aplicações que mudam rapidamente, requerem escalabilidade significativa em caso de surtos de demanda e estão geograficamente dispersas.

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