Gerenciar diferentes constelações de satélites desafia as cidades inteligentes

 Por Jayme Ribeiro*

A transformação digital das cidades deixou de depender apenas da expansão da fibra óptica e das redes móveis. À medida que milhões de sensores, câmeras, semáforos inteligentes, veículos conectados, sistemas de monitoramento ambiental e plataformas de segurança pública passam a operar em tempo real, cresce também a necessidade de uma infraestrutura de comunicação muito mais resiliente do que aquela baseada exclusivamente em redes terrestres.

Essa mudança ocorre em um momento em que a Internet das Coisas (IoT) acelera em escala global. Segundo a consultoria IoT Analytics, o mundo deverá ultrapassar 40 bilhões de dispositivos IoT conectados até 2030, praticamente o dobro do volume registrado no início da década. Esse crescimento representa um enorme desafio para governos e operadores de infraestrutura, que precisarão garantir conectividade permanente para aplicações cada vez mais críticas.

Ao mesmo tempo, a MarketsandMarkets projeta que o mercado global de cidades inteligentes deverá movimentar mais de US$ 1 trilhão até o início da próxima década, impulsionado principalmente pelos investimentos em mobilidade urbana, iluminação pública inteligente, monitoramento ambiental, gestão de energia, segurança e infraestrutura digital.

Esse cenário tem provocado uma mudança importante na arquitetura das redes de comunicação. Em vez de depender exclusivamente de fibra óptica, 5G ou futuras redes 6G, cresce a adoção de modelos híbridos que combinam diferentes tecnologias de acesso, incluindo as novas constelações de satélites de baixa órbita (LEO).

Satélites deixam de ser solução de contingência

Durante muitos anos, a conectividade via satélite foi associada quase exclusivamente ao atendimento de áreas remotas ou de difícil acesso. Hoje, essa realidade começa a mudar.

A expansão de constelações como Starlink, OneWeb e outras redes LEO reduziu significativamente a latência, aumentou a capacidade de transmissão e tornou economicamente viável integrar satélites à infraestrutura urbana.

Essa mudança também é reconhecida pela União Internacional de Telecomunicações (ITU). Em relatório publicado em 2026, a entidade destaca que a evolução dos satélites de alta capacidade (HTS), das constelações LEO e dos satélites definidos por software transformou a conectividade espacial em um complemento estratégico às redes terrestres, aumentando a cobertura, a disponibilidade e a resiliência das comunicações.

A própria APEC (Asia-Pacific Economic Cooperation) aponta que as redes LEO terão papel decisivo para ampliar a conectividade, fortalecer infraestruturas críticas, aumentar a segurança pública e acelerar a digitalização de cidades e regiões.

Administrar simultaneamente múltiplas constelações

Se os satélites passam a fazer parte da infraestrutura urbana, surge um novo desafio: como garantir disponibilidade quando uma única rede apresenta congestionamentos, perda de sinal ou limitações de cobertura?

É justamente nesse ponto que começam a surgir equipamentos capazes de administrar simultaneamente múltiplas redes de comunicação.

Um exemplo é a série MAX Orbit, desenvolvida pela Peplink, fabricante global especializada em conectividade corporativa. O equipamento permite agregar conexões provenientes de diferentes constelações de satélites — como Starlink, OneWeb e outros provedores — além de integrar enlaces 5G, fibra óptica e demais tecnologias de acesso.

Essa abordagem representa uma evolução importante da infraestrutura de conectividade. O conceito de múltiplas órbitas permite combinar diferentes provedores de satélite e outras tecnologias de acesso para garantir maior disponibilidade, desempenho e continuidade operacional, mesmo diante de falhas, obstruções ou condições climáticas adversas.

Na prática, essas tecnologias monitoram continuamente a qualidade de cada enlace disponível e distribuem automaticamente o tráfego entre diferentes conexões, evitando que oscilações em um único provedor comprometam aplicações críticas.

Essa capacidade torna-se particularmente relevante para setores como energia, mineração, logística, transporte, defesa, segurança pública e resposta a emergências, nos quais alguns segundos de indisponibilidade podem gerar impactos operacionais significativos.

Resiliência passa a ser tão importante quanto velocidade

Durante muitos anos, o debate sobre conectividade esteve concentrado na velocidade das redes. Entretanto, para aplicações de cidades inteligentes, a principal exigência passa a ser a disponibilidade contínua.

Sistemas de videomonitoramento, semáforos inteligentes, sensores ambientais, usinas, redes elétricas, hospitais e centros de operação não podem simplesmente interromper seu funcionamento quando ocorre uma falha em um enlace de comunicação.

Por isso, arquiteturas híbridas que combinam fibra óptica, 5G, Wi-Fi e múltiplas constelações de satélites tendem a se tornar padrão nas próximas gerações de infraestrutura urbana.

Mais do que ampliar a velocidade, essa estratégia aumenta a resiliência operacional, reduz riscos de indisponibilidade e cria uma camada adicional de redundância para serviços essenciais.

A infraestrutura invisível das cidades inteligentes

À medida que o número de dispositivos conectados continua crescendo, torna-se cada vez mais improvável que uma única tecnologia seja capaz de atender sozinha às demandas de conectividade das cidades.

O futuro da infraestrutura digital parece caminhar para um modelo semelhante ao adotado atualmente em data centers e redes corporativas: múltiplas rotas, múltiplos provedores e diferentes tecnologias trabalhando de forma integrada para garantir continuidade operacional.

Nesse contexto, soluções capazes de administrar simultaneamente diversas redes terrestres e múltiplas constelações de satélites deixam de ser apenas equipamentos de telecomunicações e passam a constituir um elemento estratégico da infraestrutura urbana. Em um ambiente onde bilhões de dispositivos precisarão permanecer conectados continuamente, a conectividade híbrida tende a ser um dos principais pilares tecnológicos das cidades inteligentes da próxima década.

*Jayme Ribeiro é vice-presidente de Vendas para a América Latina da Venn Telecom

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