Cabos submarinos, caminho para a descentralização de data centers de IA

Alexandre Piovesan Padtec data centers

Por Alexandre Piovesan* – A descentralização dos data centers, especialmente os dedicados à Inteligência Artificial (IA), esbarra em dois desafios importantes. De um lado, a necessidade de energia disponível em abundância, para atender ao consumo do treinamento dos modelos de IA. De outro, a conectividade de alta disponibilidade e baixa latência exigida por esses data centers.

Essa demanda por conectividade é um dos principais motivadores da nova onda de investimentos em cabos submarinos, que atinge também o Brasil – por exemplo, com a extensão até Porto Alegre (RS) do cabo Malbec, que hoje conecta Buenos Aires, na Argentina, a São Paulo e Rio de Janeiro. Anunciada em 2025, a construção dessa extensão  já atraiu empresas de data centers a investirem nessa região do Sul brasileiro – o que comprova que a chegada de um cabo submarino a um país, ou região, traz investimentos de empresas e crescimento econômico.

Os cabos submarinos atualmente são responsáveis por 98% do tráfego global de dados, voz e vídeo. São infraestruturas críticas, confiáveis, com baixíssimo índice de falhas em relação às mais robustas redes terrestres de fibra óptica. O Brasil está bem coberto por cabos submarinos internacionais, que chegam principalmente em Fortaleza (CE) – o maior hub desses cabos na América Latina. E as regiões Norte e Nordeste do país apresentam alto potencial para a instalação de novos data centers, uma vez que dispõem de energia limpa e renovável – eólica e solar, especialmente – em quantidade abundante e a custo acessível.

No entanto, a grande concentração de data centers no Brasil hoje está no Sudeste: são 236 em São Paulo e Barueri, 181 em Campinas (SP) e 71 no Rio de Janeiro, segundo dados da empresa JLL, que atua na área de serviços imobiliários. De fato, é nessa região que está o grande consumo de processamento de informações, e é preciso notar que nela há também energia disponível e conectividade de qualidade. Para implantar uma arquitetura de descentralização de data centers voltados à IA aproveitando a disponibilidade de recursos abundantes de energia do Norte e Nordeste, é essencial distribuir a conectividade robusta, estável e de alta disponibilidade que chega ao país através dos cabos submarinos. Esse ainda é o principal gargalo para a instalação de data centers de missão crítica nessas regiões.

Como distribuir a conectividade mantendo a robustez, a alta capacidade e o baixíssimo índice de falhas dos cabos submarinos internacionais? Uma alternativa que tem despertado o interesse de empresas de data centers, provedores de serviços e até de prefeituras de diversas capitais é o cabo submarino festoon, que permite contornar a costa brasileira conectando pontos em distâncias mais curtas. Os cabos submarinos utilizados na conexão de longas distâncias, por exemplo entre países, são lançados em águas profundas, o que exige embarcações especiais e um serviço especializado que poucas empresas no mundo têm capacidade de executar. Além disso, incorporam um número grande de repetidores, necessários para fazer os sinais atravessarem os oceanos até chegar ao destino.

Já o cabo festoon, principalmente na costa brasileira que se caracteriza pela larga plataforma continental, é acomodado tipicamente em águas rasas (de 100 a 150 metros de profundidade) e, por isso, sua instalação requer um tipo de embarcação um pouco mais simples. Além disso, dispensa o uso de repetidores – que têm custo elevado -, uma vez que se destina à conexão de pontos localizados a distâncias de até 300 quilômetros. A operação e manutenção dessa infraestrutura é mais simples, o que também contribui para a redução do investimento. Esses fatores tornam o cabo festoon uma opção viável para distribuir a conectividade de alta disponibilidade dos cabos submarinos internacionais entre as capitais e cidades brasileiras localizadas ao longo da costa – que poderão abrigar os novos data centers.

Mais do que isso, ao viabilizar a distribuição da conectividade, essa solução cria uma rede submarina redundante – o que traz mais segurança e estabilidade para todo o sistema de telecomunicações – e ainda tem a vantagem de promover a inclusão digital no país. As Infovias construídas pelo projeto Amazônia Conectada, por exemplo, poderão ter acesso aos cabos submarinos internacionais que chegam a Fortaleza, por meio de uma conexão de cabo festoon.

São infraestruturas complementares, com objetivos e apelos distintos. Mas, sem dúvida, o cabo festoon é a infraestrutura base que pode posicionar o Brasil como plataforma global de IA, cloud e economia digital.

*Alexandre Piovesan é diretor de Produtos da Padtec

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