O Oscar, a maior premiação do cinema, sempre foi visto como um termômetro da qualidade cinematográfica, reconhecendo filmes que marcaram a indústria com atuações memoráveis, roteiros inovadores e direção excepcional. No entanto, um gênero frequentemente relegado ao segundo plano na premiação é o terror.
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Mesmo com sucessos de bilheteria, aclamação da crítica e performances intensas, a Academia continua a tratar filmes de horror como obras de menor prestígio. O que explica essa resistência? E mais importante: quando essa mentalidade mudará?
O preconceito com o terror e a arte cinematográfica
Historicamente, filmes de terror são vistos por parte da crítica e da indústria como produções menores, voltadas ao entretenimento popular e à exploração do medo pelo medo. Essa percepção superficial ignora que o gênero é um dos mais desafiadores do ponto de vista técnico e narrativo. Criar suspense, trabalhar o medo do desconhecido e provocar reações psicológicas no público exige maestria cinematográfica. No entanto, muitos membros da Academia continuam a encarar esses filmes como obras descartáveis, distantes do patamar de “arte séria”.
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A ironia é que algumas das produções mais icônicas do cinema pertencem ao terror. Psicose (1960), de Alfred Hitchcock, redefiniu a linguagem do suspense e horror psicológico, mas não foi indicado a Melhor Filme. O Iluminado (1980), de Stanley Kubrick, se tornou um dos filmes mais estudados da história do cinema, mas foi completamente ignorado pela Academia. Mesmo filmes mais recentes, como Hereditário (2018), que entregou uma das performances mais impressionantes da carreira de Toni Collette, foi solenemente esnobado.
Os poucos casos de reconhecimento
Apesar da tendência a ignorar o gênero, houve raras exceções. O Exorcista (1973) foi indicado a dez Óscares, incluindo Melhor Filme, e venceu dois. O Silêncio dos Inocentes (1991) quebrou paradigmas ao vencer Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Ator, Melhor Atriz e Melhor Roteiro Adaptado, tornando-se o único terror a ganhar o prêmio principal. Em 2018, Corra!, de Jordan Peele, venceu Melhor Roteiro Original, mas perdeu Melhor Filme, apesar de seu impacto cultural.
O caso de O Silêncio dos Inocentes, aliás, ilustra outro problema: quando um terror ganha reconhecimento, ele frequentemente é reclassificado como “thriller” ou “drama”. Isso também ocorreu com Cisne Negro (2010), um horror psicológico que foi indicado a Melhor Filme, mas que muitas vezes é descrito como “drama”.
Essa estratégia retira do gênero o seu devido mérito e reforça a ideia de que um terror não pode, por si só, ser digno do reconhecimento da Academia.
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O caso de A Substância e a esperança de mudança
A indicação de A Substância (2024) a Melhor Filme e a performance de Demi Moore como protagonista trouxeram de volta o debate sobre a marginalização do terror pelo Oscar. Se Moore vencer Melhor Atriz, será um marco histórico, pois raras performances em terror recebem esse tipo de reconhecimento. Se o filme levar Melhor Filme, será apenas o segundo na história da premiação a conquistar o prêmio.
A Substância, aliás, não é apenas um filme de horror grotesco, mas uma crítica social sobre padrões de beleza e envelhecimento. O mesmo pode ser dito de Corra!, que abordou o racismo de forma incisiva. Babadook (2014) explorou o luto e a depressão. Midsommar (2019) refletiu sobre traumas emocionais. Todos esses filmes provaram que o terror pode ser tão filosófico e profundo quanto qualquer drama convencional, e ainda assim foram deixados de lado pela Academia.
Há futuro para o terror no Oscar?
O horror, como gênero, merece mais respeito da Academia. A ideia de que apenas dramas pesados ou filmes históricos podem ser levados a sério no Oscar está ultrapassada. Filmes de terror exploram temas profundos e perturbadores de maneira singular, utilizando simbolismo, direção criativa e performances exigentes para criar experiências memoráveis.
Com o sucesso de A Substância e o impacto que filmes como Corra! e O Homem Invisível (2020), por exemplo, tiveram nos últimos anos, talvez estejamos assistindo ao começo de uma mudança. Resta saber se a Academia finalmente deixará de lado seus preconceitos e dará ao terror o reconhecimento que há muito tempo merece.
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