Principais reservatórios de água doce do planeta e importantes reguladoras climáticas, pois refletem a radiação solar em suas superfícies brancas, as geleiras do mundo estão derretendo a uma razão de três piscinas olímpicas (7,5 mil m³) por segundo, conforme um estudo recente. Isso representa uma perda de 273 bilhões de toneladas de gelo em média a cada ano, entre 2000 e 2023.
Excluídas as camadas de gelo da Groenlândia e da Antártica, que cobrem continentes inteiros, as demais geleiras do planeta, que se formam em grandes altitudes e altas latitudes, cobriam uma área de 705,2 mil km² e continham 121,7 trilhões de toneladas de gelo, globalmente, no ano 2000. A partir daí, elas perderam cerca de 5% de todo esse volume cristalizado.
Publicada na revista Nature, a “Estimativa da comunidade sobre as mudanças na massa global das geleiras de 2000 a 2023” destaca a importância das geleiras como “indicadores de mudanças climáticas antropogênicas em andamento. Seu derretimento leva ao aumento de riscos geológicos locais, e impacta ecossistemas marinhos e terrestres, recursos regionais de água doce, e ciclos globais de água e energia”.
Perda de gelo surpreende até mesmo os cientistas
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Para o Centro Nacional Francês de Pesquisa Científica (CNRS), que participou do estudo, juntamente com dezenas de outras de instituições mundiais de pesquisa, a analogia de três piscina olímpicas de gelo derretendo, ou se desprendendo das geleiras, a cada segundo foi uma surpresa para os pesquisadores.
“Esperávamos descobrir que as geleiras estão derretendo, mas a quantidade de gelo perdida nos últimos anos é chocante até mesmo para nós, cientistas“, afirmou em um comunicado de imprensa o principal autor do estudo, Michael Zemp, professor da Universidade de Zurique (UZH), na Suíça, e diretor do Serviço Mundial de Monitoramento de Geleiras.
Os resultados revelaram perdas extremas nas geleiras dos Alpes e das montanhas dos Pirineus da Europa, com ambas as regiões mostrando um declínio de 40% no seu volume de gelo durante o período do estudo. “Nos Alpes europeus, as geleiras perderam 10% de seu gelo em apenas dois anos”, afirmou Zemp à Live Science.
Estudando a perda de massa das geleiras no mundo
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Para a realização do estudo, uma equipe internacional de pesquisa desenvolveu, sob a coordenação do Serviço Mundial de Monitoramento de Geleiras, sediado na Universidade de Zurique, o chamado “Exercício de Intercomparação de Balanço da Massa de Geleiras” (GlaMBIE na sigla em inglês).
Nesse trabalho colaborativo, a comunidade de pesquisa compilou dados de satélite e medições diretas de todas as regiões de geleiras da Terra, exceto as da Groenlândia e da Antártica. Em seguida, os cientistas compararam essas informações e as integraram para criar uma série temporal que mostrou, ano a ano, como a massa das geleiras se modificou em todas as regiões da Terra, entre os anos de 2000 a 2023.
Esse tipo de exercício de intercomparação foi fundamental para garantir que os dados sobre o derretimento das geleiras fossem confiáveis e comparáveis entre as diferentes regiões do mundo. A coleta de informações de várias fontes e técnicas permitiu uma compreensão mais precisa das mudanças globais nas geleiras, e sua contribuição para a elevação do nível do mar.
Importância do estudo sobre mudança da massa global de geleiras
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O que o estudo atual trouxe de novo vai além da informação que as geleiras estão derretendo cada vez mais rápido, algo já de conhecimento público. O valor da pesquisa foi combinar provas de toda a comunidade de pesquisa, que incluiu diversos cientistas do clima, governos, a indústria, além de qualquer pessoa preocupada com os impactos do aquecimento global.
Das diversas formas de estimar como as geleiras estão mudando, desde medições diretas a diferentes tipos de dados de satélite, essas estimativas da comunidade “são vitais, pois dão às pessoas confiança para usar suas descobertas”, afirmou à BBC o físico Andy Shepherd, chefe do Departamento de Geografia e Meio Ambiente da Universidade de Northumbria, no Reino Unido, que não participou do estudo.
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Para o gerente de projeto do GlaMBIE, Samuel Nussbaumer, as observações “indicam que a perda de massa das geleiras continuará e possivelmente acelerará até o final deste século”. Os dados reforçam o apelo do IPCC por ações urgentes para reduzir emissões de gases-estufa. Para Zemp, cada 0,1 °C de aquecimento evitado ajudará a preservar geleiras e minimizar impactos na disponibilidade hídrica e elevação do nível do mar.
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