Seja para facilitar o cotidiano das pessoas ou das empresas, o caminho que a Inteligência Artificial percorreu até aqui não tem mais volta, e isso é ótimo. A IA não é nova — os primeiros estudos e aplicações práticas datam dos anos 1950. Porém, o que abriu nossos olhos foi o lançamento do ChatGPT, em novembro de 2022. Um site ou app facilmente acessível que tangibilizou para a maioria das pessoas o que antes ficava restrito à esfera acadêmica ou à ficção científica. As empresas também estão se beneficiando dessa movimentação, acelerando as demandas e tornando o dia a dia dos colaboradores mais eficiente e prático.
A IA generativa — aquela que alimenta o ChatGPT, o Gemini ou o Deep Seek — impressiona, pois é o mais próximo que já chegamos de replicar o pensamento humano. No entanto, ela não é uma panaceia. O domínio da IA generativa é o da linguagem e, portanto, é ótima para analisar, traduzir, resumir e gerar textos ou criar imagens a partir deles. Porém, não é a tecnologia mais adequada para fazer simulações financeiras, por exemplo. Ainda assim, várias tarefas que antes só poderiam ser realizadas por humanos hoje já podem ser automatizadas com ganhos.
Outro fato recente que deve acelerar a inovação é o impacto do lançamento do Deep Seek, um novo modelo de linguagem originário da China. Já foram publicadas diversas reportagens e análises econômicas sobre a “inflação” dos chips, e não cabe aqui repetir todos os pontos. Meu foco está na grande quebra de paradigma do Deep Seek: mostrar que podemos desenvolver modelos avançados e com menor consumo de recursos. Tudo isso em código aberto, como se faz numa boa pesquisa. Essa quebra de paradigma abre uma enorme oportunidade para o desenvolvimento de novos modelos abertos, modelos menores e mais aplicações, contribuindo para a aceleração e difusão da IA.
É importante que a gente reflita sobre o real impacto da IA e discuta mais sobre seu desenvolvimento ético e seguro, para que isso não se torne uma ‘cyber pandemia’. Foi com esse intuito que estive presente no Fórum Global de IA para Países Emergentes, realizado em Genebra, na sede da ONU. Lá, tive a oportunidade de participar do grupo de trabalho de Educação para IA. O grupo não é vinculado a nenhum país ou organização, e os 40 membros são voluntários de 22 países, unidos pelo desejo de aplicar a IA para o bem comum, colocando a humanidade como prioridade.
Um dos tópicos recorrentes em todos os painéis e discussões foi a necessidade de uma educação ampla sobre IA, desde ensinar as novas gerações até recapacitar os mais velhos, passando pela necessidade de qualificar professores, formadores de políticas e tomadores de decisão. A discussão sobre inclusão digital agora se amplia — precisamos falar sobre a inclusão para a IA.
Um tema que é pouco discutido é a necessidade de avançar na proficiência de leitura e escrita — basta consultar os últimos relatórios do PISA, que mostram que mais de metade dos nossos alunos de 15 anos mal conseguem interpretar mais do que um parágrafo de texto. A relação entre os dois assuntos é a IA Generativa ser baseada, como mencionado anteriormente, em modelos de linguagem. Se queremos preparar as novas gerações para as profissões do futuro, é fundamental avançar na educação básica.
Resumindo, em três perspectivas diferentes. Se você é um tomador de decisão e você ainda não tem um plano claro de uso e impacto da IA no seu negócio, corra. Para todas as pessoas no mercado de trabalho, se você ainda não usa IA no seu dia a dia, atualize-se. O seu trabalho não vai ser substituído pela IA, mas por alguém que sabe usar a IA melhor do que você. Finalmente, como cidadãos, precisamos discutir avanços na inclusão digital e da IA, começando pela melhoria da proficiência de leitura e escrita. Só assim não vamos deixar ninguém pra trás.
O grande segredo não está só na tecnologia em si, mas em como vamos encará-la: se como uma adversária ou uma aliada. Se me perguntarem, vou escolher uma aliada, com certeza.
Carlos Sena, fundador da AIDA.